As peripécias da nova masculinidade
No exato instante do século passado em que as mulheres se emanciparam do papel tradicional de “feminilidade” os homens, como moças, tiveram vertigens fortíssimas, imploraram por sais e sentiram o fundamento sólido de milênios de macheza sendo puxado como um tapete de debaixo dos seus pés. Individual e coletivamente, nunca nos recuperamos do baque.
Hoje em dia ninguém sabe o que é ser homem, nem mesmo, supõe-se, os dois ou três homens que dizem restar nas regiões mais remotas do sertão australiano. Nenhuma das definições usuais de masculinidade parece se ajustar ao amorfo ideal do homem moderno, e nenhum homem moderno parece ser capaz de se ajustar às definições honradas pela tradição.
Ninguém sabe explicar exatamente como aconteceu, mas o homem perdeu desgraçadamente a sua identidade, e nunca compareceu a um agência dos Correios para tentar reavê-la. Homem não pode mais perder a paciência, xingar, falar em voz alta, dar soco, passar mais tempo com os amigos que com a família, ficar sossegado sem discutir a relação, arrotar em público, descuidar da cutícula, garrar no colarinho de um desaforado, limpar a boca na toalha de mesa, usar camisa amassada, dar de ombros ou fazer xixi de porta aberta.
Como resultado, espera-se que o homem ideal dos dias de hoje tenha as qualidades do ideal de mulher de cinqüenta anos atrás. O homem deve ser vaidoso, caseiro, recatado, sensível, temperante e deslumbrado. Deve estar disposto a entreter os filhos enquanto o cônjuge descansa do batente com a boca aberta no sofá da sala, exatamente como as mulheres costumavam fazer por nós. Deve gastar mais tempo com o espelho, com o cabelo e com hidratação da pele do que ousaria qualquer corista do Moulin Rouge. Deve assumir o molde do metrossexual, o infame almofadinha de brinco, representado tão formidavelmente por Brad Pitt.
Os contrastes gerados pela atual pendência da condição masculina são incontáveis. Antes da descoberta da opção/orientação sexual, quando homem só costumava casar com mulher, a masculinidade estava ligada menos ao comportamento sexual do que a um posicionamento pessoal, uma conquista de espaço fundamentada na conduta individual. Não bastava casar e ter filhos para ser ícone de masculinidade – era preciso um quê a mais de caráter e disposição. Hoje em dia homens barbados beijam os compenetrados bigodes de seus namorados, e em compensação há homens casados e pais-de-família mais afeminados do que determinados travestis.
O que quer que tenha sido, ser homem hoje não é mais ter cara de homem, pinta de homem e voz de homem; não é mais estar casado com mulher e ter filhos; não é ter pensamento independente, arrojo, força de corpo e de espírito; não é ter queixo cabeludo e cabelo no peito; não é ser capaz de defender-se e de defender; não é não ler revistas de moda, não pintar as unhas e não depilar as pernas; não é prover nem proteger; não é não ter preocupações e atitudes tradicionalmente femininas.
O segredo, suspeito, é que homem que é homem não tem neuras sobre o que é ser homem de verdade. Homem que é homem está nem aí.
Estou ainda pra conhecer um.
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