21/10/2005

As peripécias da nova masculinidade

Estocado às 06:20 em
por Paulo [brabo!]

No exato instante do século passado em que as mulheres se emanciparam do papel tradicional de “feminilidade” os homens, como moças, tiveram vertigens fortíssimas, imploraram por sais e sentiram o fundamento sólido de milênios de macheza sendo puxado como um tapete de debaixo dos seus pés. Individual e coletivamente, nunca nos recuperamos do baque.

Hoje em dia ninguém sabe o que é ser homem, nem mesmo, supõe-se, os dois ou três homens que dizem restar nas regiões mais remotas do sertão australiano. Nenhuma das definições usuais de masculinidade parece se ajustar ao amorfo ideal do homem moderno, e nenhum homem moderno parece ser capaz de se ajustar às definições honradas pela tradição.

Ninguém sabe explicar exatamente como aconteceu, mas o homem perdeu desgraçadamente a sua identidade, e nunca compareceu a um agência dos Correios para tentar reavê-la. Homem não pode mais perder a paciência, xingar, falar em voz alta, dar soco, passar mais tempo com os amigos que com a família, ficar sossegado sem discutir a relação, arrotar em público, descuidar da cutícula, garrar no colarinho de um desaforado, limpar a boca na toalha de mesa, usar camisa amassada, dar de ombros ou fazer xixi de porta aberta.

Como resultado, espera-se que o homem ideal dos dias de hoje tenha as qualidades do ideal de mulher de cinqüenta anos atrás. O homem deve ser vaidoso, caseiro, recatado, sensível, temperante e deslumbrado. Deve estar disposto a entreter os filhos enquanto o cônjuge descansa do batente com a boca aberta no sofá da sala, exatamente como as mulheres costumavam fazer por nós. Deve gastar mais tempo com o espelho, com o cabelo e com hidratação da pele do que ousaria qualquer corista do Moulin Rouge. Deve assumir o molde do metrossexual, o infame almofadinha de brinco, representado tão formidavelmente por Brad Pitt.

Os contrastes gerados pela atual pendência da condição masculina são incontáveis. Antes da descoberta da opção/orientação sexual, quando homem só costumava casar com mulher, a masculinidade estava ligada menos ao comportamento sexual do que a um posicionamento pessoal, uma conquista de espaço fundamentada na conduta individual. Não bastava casar e ter filhos para ser ícone de masculinidade – era preciso um quê a mais de caráter e disposição. Hoje em dia homens barbados beijam os compenetrados bigodes de seus namorados, e em compensação há homens casados e pais-de-família mais afeminados do que determinados travestis.

O que quer que tenha sido, ser homem hoje não é mais ter cara de homem, pinta de homem e voz de homem; não é mais estar casado com mulher e ter filhos; não é ter pensamento independente, arrojo, força de corpo e de espírito; não é ter queixo cabeludo e cabelo no peito; não é ser capaz de defender-se e de defender; não é não ler revistas de moda, não pintar as unhas e não depilar as pernas; não é prover nem proteger; não é não ter preocupações e atitudes tradicionalmente femininas.

O segredo, suspeito, é que homem que é homem não tem neuras sobre o que é ser homem de verdade. Homem que é homem está nem aí.

Estou ainda pra conhecer um.




Leia também:
Todos os homens

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12/7/2005

Falsos detetores de mentiras e A Cidade dos Mentirosos

Estocado às 06:05 em
por Paulo [brabo!]

Li há duas semanas na Scientific American um artigo sobre a base evolucionária e científica da mentira (“Por que nós mentimos?”, pergunta o autor em determinado momento. “Porque funciona”, ele argumenta).

Os homens mentem tanto quanto as mulheres. Mas há uma diferença.

Dentre as pesquisas sobre o assunto realizadas recentemente, vale mencionar aquela que revelou uma surpresa: quantitativamente, os homens mentem tanto quanto as mulheres. Porém há uma diferença. Em geral os homens mentem para vender uma imagem mais positiva de si mesmos, enquanto as mulheres mentem para que a pessoa com quem estão falando sinta-se mais à vontade.

Outra pesquisa levantou um dado importante, ao mesmo tempo previsível e paradoxal: todos, homens e mulheres, tendem a falar mais a verdade quando estão presos a falsos detetores de mentiras – desde que, é claro, acreditem nos pesquisadores quando eles mentem dizendo que o falso detetor de mentiras usado na pesquisa é verdadeiro. Esse, lembrei, é um velho e intrigante método usado em interrogatórios: usar uma mentira para extrair uma verdade. A casa está cercada, o seu cúmplice já confessou, et cetera.




Na noite do dia em que li esse artigo sonhei que estava num ônibus de excursão numa cidade que parecia Curitiba, exatamente naquele laço de rua que circunda a Boca Maldita. Por alguma razão, comecei a conversar pela janela com as pessoas que passavam pela rua, enquanto o ônibus avançava devagar no trânsito. A todas fiz a mesma pergunta: “Por favor, que cidade é esta?”.

Cada pessoa, mesmo estando a menos de dois passos da outra, deu uma resposta diferente. “Francisco Beltrão”, disse um velho de chapéu. “Pato Branco”, disse uma mulher gorda com uma pele de raposa ao redor do pescoço. “Londres”, disse, impossivelmente, outro sujeito. E assim por diante. E, mesmo dentro da geografia impossível dos sonhos, eu sabia que estavam todos mentindo.

Cada pessoa a que fiz a pergunta deu uma resposta diferente.

O artigo da Scientific American lembra que a mentira é algo comum na criação: flores que lembram borboletas, lagartas que imitam frutas venenosas, pássaros e peixes que inflam o peito para parecerem maiores do que são ou, como encontrei outro dia numa das minhas caminhadas, um graveto que apenas a inspeção mais cuidadosa revelará ser um inseto.

A diferença no caso dos seres humanos (talvez também no de outros primatas) é que, além de sabermos que estamos mentindo, aprendemos a criar mentiras que se adaptem convenientemente a cada situação: maquiagens, implantes, ombreiras, ajustes contábeis e relatórios trimestrais.

Nosso problema é que nos tornamos, nós mesmos, sofisticados detetores de mentiras: analisando sinais muito sutis de linguagem do corpo, sabemos dizer de forma intuitiva, e com elevado grau de acerto, se a outra pessoa está mentindo. A teoria do artigo é que nossa capacidade de diagnosticar mentiras nos outros tornou-se um problema para nós porque, sabendo o quanto a mentira é fácil de detetar, ficamos muito nervosos no momento em que vamos nós mesmos mentir deliberadamente. Nosso nervosismo nos denuncia, e perdemos as vantagens técnicas que a mentira poderia nos oferecer.

Para contornar esse problema, nosso cérebro, muito matreiro, encontrou um atalho sofisticado: aprendemos a acreditar nas nossas mentiras, de modo a que quando formos dizê-las aos outros elas pareçam mais convincentes. O processo é inteiramente inconsciente, mas tornou-nos mentirosos tão sofisticados que acabamos contornando nossos próprios mecanismos de detecção.

Aprendemos a acreditar nas nossas mentiras.

Os mentirosos mais eficazes são os que mentem para si mesmos.

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11/7/2005

Nunca entregue de todo o coração

Estocado às 06:14 em
por Paulo [brabo!]

W. B. Yeats

Nunca entregue de todo o coração
Pois se parecer certo para uma mulher apaixonada
O amor parecerá também que não vale nele nem pensar
E nunca sonham elas que ele possa se esvair a cada beijo;
Pois tudo que é adorável é prazer benfazejo, etéreo e fugaz.
Ah, nunca entregue de imediato o coração
Pois elas, como testemunham todos os lábios suaves,
Entregaram seus corações ao folguedo.
E quem saberia brincar como convém
Se surdo e mudo e cego de amor?
Quem escreveu isto sabe que custo tem
Pois entregou de todo o coração e perdeu.

Never give all the heart, for love
Will hardly seem worth thinking of
To passionate women if it seem
Certain, and they never dream
That it fades out from kiss to kiss;
For everything that’s lovely is
But a brief, dreamy, kind delight.
O never give the heart outright,
For they, for all smooth lips can say,
Have given their hearts up to the play.
And who could play it well enough
If deaf and dumb and blind with love?
He that made this knows all the cost,
For he gave all his heart and lost.

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22/6/2005

História de terror

Estocado às 06:21 em
por Paulo [brabo!]

Terminei ontem de ler Incubus, de Ann Arensberg. O livro é uma narrativa atenuada de terror, nem de perto tão brilhante quanto, mas na mesma linha de A Assombração da Casa da Colina, de Shirley Jackson. Esse estilo pressupõe que o sentimento de terror é melhor expresso pelo que em inglês diz-se understatement – quando o narrador diz menos do que poderia ou deveria dizer.

Para um leitor do sexo masculino, Incubus é uma narrativa de terror por um motivo adicional: a história é contada na primeira pessoa por uma mulher casada.

Aparentemente uma esposa pode desenvolver a capacidade de permanecer tomando partido do seu marido da boca para fora, ao mesmo tempo em que nutre interiormente uma concepção nada lisonjeira dele. Na verdade o mistério é tamanho que um sentimento pode acabar sendo alimentado pelo outro.

Posso garantir que os homens, casados ou não, em geral pensam em si mesmos como homens. Nossa auto-imagem é caracterizada basicamente por uma percepção de implacáveis determinação e independência. Uma mulher, por outro lado, pode fundamentar o seu amor a partir do quanto percebe que o seu homem precisa dela – o quanto, sem a sua intervenção, ele estaria desamparado, mal-alimentado, mal-vestido, mal abrigado, mal colocado. Parece que para a mulher o amor está intimamente ligado ao tanto que ela acredita o seu homem carece, sem saber, da assistência técnica dela – quando dita a sua auto-imagem que um homem por definição não precisa de acessório algum para se definir, nem mesmo três refeições por dia ou uma meia que combine com a calça. continue lendo>

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12/6/2005

Agostinho e Teresa

Estocado às 06:19 em
por Paulo [brabo!]

Assombram o cristianismo duas tentações opostas: a teologia e o misticismo. Mais fácil do que evitá-las é mapeá-las no eixo dos sexos: a teologia é distração eminentemente de homens, o misticismo é paixão de mulheres. Para usar os termos a que sempre retorno, a teologia é um jogo©, o misticismo busca a partilha© – sendo que jogo© e partilha© referem-se aqui ao modo fundamental em que operam, respectivamente, homens e mulheres.

A teologia apresenta todos os componentes básicos do jogo© masculino: o desafio, o código e o prêmio. O cristianismo místico, por outro lado, exibe as características da partilha© feminina: ele busca o contato e o equilíbrio e está fundamentado em fluxos, canais e trocas. A teologia busca incessantemente compreender, tabular, fixar limites; o misticismo quer conhecer, relacionar-se, desfazer os limites. A atividade fundamental da teologia é a especulação mental; do misticismo, a contemplação. O homem gasta o tempo com idéias a respeito de Deus, a mulher quer mergulhar num relacionamento intenso com ele.

Não é por acaso que a maioria esmagadora dos teólogos foi e é composta de homens como Agostinho, e que os maiores expoentes do cristianismo místico foram mulheres como Teresa de Ávila. Agostinho e Teresa representam respostas opostas a uma mesma carência, colocadas em ação pelos mecanismos naturais a cada um dos sexos (o místico São João da Cruz é quase uma exceção, mas é preciso reconhecer que há em geral mais homens no terreno do cristianismo místico do que mulheres no terreno da teologia).

Para ser justo e apesar do meu evidente interesse no jogo©, não posso deixar de simpatizar mais com o misticismo do que com a teologia. Deveria parecer evidente que o Deus da Escritura cristã deseja menos ser compreendido racionalmente do que estabelecer um relacionamento. A filosofia é, na verdade, um jogo© mais razoável do que a teologia: a filosofia pelo menos, trata do que pode, em princípio, ser conhecido. A teologia é infinitamente mais ambiciosa; sua pretensão de destrinchar os meandros da insondável mente de Deus produz resultados quase sempre desastrosos.

Dos males o misticismo é, por certo, o menor. Sua ênfase na oração, na meditação e na contemplação mantém aceso o assombro de Deus e mantém-no como o insondável Outro – um Outro que não pode ser exatamente compreendido ou colocado numa caixinha mas com quem podemos, estranhamente, nos relacionar. Nesse sentido, Deus não é um Outro mais insondável do que somos para todos os outros.

A coisa ruim que o misticismo poderia fazer é, como já aconteceu, afastar-nos do mundo pelo mergulho irreversível em nós mesmos. Os bons místicos, no entanto, sabem que mergulhar em Deus é tocar os outros no mundo. Conhecer a Deus, é naturalmente, conhecer o amor. Deus amou o mundo de tal maneira, e não esperaria destino menos glorioso de nós.


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18/5/2005

Intimidade e alienação

Estocado às 06:30 em
por Paulo [brabo!]

Depois de uma dúzia – ou várias dúzias – desses diálogos unilaterais nós desistíamos de derramar nossa substância num poço seco. Perdíamos a fé num dos nossos mais preciosos recursos femininos. Os homens consertam as coisas com suas mentes, as mulheres resolvem problemas expondo os seus sentimentos, usando a fala como instrumento. Para nós conversar é intimidade, silêncio é alienação. Mantendo-se em silêncio [os homens] criam que estavam mantendo o status quo, enquanto nós sentíamos que eles o estavam destruindo.

Ann Arensberg, Incubus

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3/5/2005

A dura casca dos fatos

Estocado às 06:02 em
por Paulo [brabo!]

– Henry – eu o lembrei, – estou esperando para ouvir o que aconteceu.

Henry ficou surpreso de ser arrancado à força das suas especulações. Ele envolvia-se com o significado mais profundo dos eventos, que os fatos ocultavam. A verdade era para ele como uma castanha protegida por uma dura casca factual, e sua tarefa era romper essa resistente cobertura exterior. Minha tendência era achar que os fatos eram verdade suficiente, e que eles ressentem-se de sondagens e interferências humanas. Essa era uma das diferenças entre nós dois, e entre a maior parte dos homens e das mulheres.

Ann Arensberg, Incubus

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