9/11/2005

Vertente

Estocado às 05:56 em
por Paulo [brabo!]

O pedido havia chegado há três dias, mas a chuva não parava. Gastei a tarde dobrando cuecas e descascando laranjas para fazer doce.

A chegada do velho Ismael tirou-me da cama às oito da noite. Dizia que as coisas haviam piorado, que as pedras vinham de todas as direções e de nenhuma. Que eu devia vir assim mesmo apesar da chuva, que o rio não parava de engrossar e logo engoliria todas as pontes. O velho Ismael estava tão apavorado que tive de deixar que ele dormisse acocorado na poltrona, no meu próprio quarto, que ele se recusava a ficar sozinho. Durante a noite seu pé descalço virou no chão a xícara de chá.

Partimos na manhã seguinte, debaixo de chuva grossa. Adiante da Dobradeira resolvemos tomar a ponte dos Stokel, que Ismael havia usado na noite anterior e que talvez fosse a única que restava. O entulho da corrente raspava como garras o fundo da ponte nova de madeira verde, mas as vigas e colunas pareceram muito firmes. Quando deixamos o Cabeçudas para trás, na subida da tafona, a estrada virou uma rampa vermelha de lama. Demoramos a manhã inteira para vencer a vertente e chegar ao topo da serra.

Era três da tarde quando comemos toucinho e pão preto de banha na varanda do Mano Loé. Quando dissemos que íamos à missão da Alva a Jussara contou que tinha visto uma visagem no seu quarto na noite anterior. O Mano estava lá fora fechando uma brecha no cercado dos cabritos quando um homem muito gordo, quase redondo e com as roupas amarelas de lama seca entrou flutuando silenciosamente pela janela, os olhos muito abertos olhando como que através dela. A Jussara correu para fora e quando os dois entraram de volta o homem tinha desaparecido. Perguntei se a janela estava aberta com a chuva e ela disse que não, mas o homem tinha entrado flutuando pela janela assim mesmo.

O Mano me disse quando íamos embora que a Jussara estava com bucho e não vinha dizendo coisa com coisa.

Atravessamos a porteira da Alva depois das cinco. A chuva tinha parado, mas as nuvens escuras corriam empanturradas no céu com a barriga roçando a copa preta da mata.

Não vimos ninguém na entrada. A escola estava vazia, quase todas as janelas quebradas, o chão e as mesas cobertos de pedras pequenas e cacos de vidro. Fomos bater na casa do zelador, o Norde, que estava recolhido com a família com janelas e venezianas fechadas. Contou-nos que não havia luz e por isso a lâmpada de querosene e que o professor havia fugido naquela manhã e fazia uma semana que não havia aula.

Contou que tinha começado na tarde em que ele e o professor viram, de dentro da escola, um homem de chapéu olhando diretamente para eles na borda da mata. O homem desapareceu logo e as pedras começaram a vir daquela direção. Quando o professor José Renato pegou uma pedra para revidar foi atingido no pescoço por uma pedra que vinha de outra direção. As pedras vinham de todo lugar e às vezes pareciam mudar de rumo. O Norde contou ter sido atingido por uma pedra que havia entrado pela porta aberta e desviado para o canto em que ele estava atendendo o fogão. Caíam o dia inteiro, mas paravam à noite pouco depois que as luzes se apagavam.

Ficou decidido que eu dormiria sozinho na escola e Ismael numa rede na varanda de Norde. Nenhuma pedra caiu naquela noite, e nada ouvi de mais fúnebre que o lamento de um ouriço ou outro quando a chuva parava para recuperar o fôlego.

O dia clareou sem qualquer convicção para uma chuva fina, e enquanto a manhã avançava no serviço de limpeza da escola foi ficando evidente que as pedras não voltariam a cair. Resolveu-se que eu partiria depois do almoço para procurar o professor José Renato na casa dos seus pais em Orleans, e tentar convencê-lo a voltar. Norde dizia que ele não vinha.

Deixei Ismael, Norde, Rosa e as crianças na Alva, desviei o sítio do Mano e desci a serra capotando enxurrada abaixo. Parei na tafona abandonada para comer a tapioca que Rosa havia embrulhado. Lá embaixo a água amarela do rio cobria ponte, mas consegui atravessar e cheguei em casa perto das seis horas.

A chuva caía como uma parede. Não ventava porque a água era tanta que não sobrava espaço para o vento. Tomei banho e quando terminei de fazer o doce de casca de laranja eram duas da manhã.

Era o intervalo entre uma chuva e outra e ouvi um barulho no telhado; achei que fosse o gambá que vinha sumindo com as galinhas. Larguei as compotas de lado e assim que abri a porta vi o homem flutuando na direção dos pinheiros junto da porteira, redondo como uma uva e achei que voava de costas, olhando na direção da casa.

Quando voltei com a lanterna e com o velho revólver o homem havia subido mais e estava desaparecendo por trás das copas das árvores da curva da Dobradeira. Relampejava de vez em quando e vi com clareza que ele olhava fixamente para mim antes de desaparecer.

Assim que cruzei a porteira o céu desabou novamente. Contornei a Dobradeira na direção do pasto dos Stokel; segui olhando para a cima, para ver se entrevia o homem nas nuvens ou na copa das árvores. Achei que devia alertar o Alberto Gordo ou pelo menos sondar se ele tinha visto alguma coisa, mas fui seguindo na direção do rio.

Foi eu colocar o pé na ponte e a chuva parou de imediato, sem qualquer aviso ou transição, como se as represas do céu tivessem se esgotado por completo naquele instante. Dei um ou dois passos sobre a ponte e só se ouvia as minhas botas na madeira e as árvores pingando alternadamente.

Aquilo me gelou o estômago, porque eu devia estar ouvindo o barulho do rio e o silêncio era completo. Não havia ruído nenhum de água corrente. Desviei o facho da lanterna para onde deveria estar a corrente do rio, e tudo que a lanterna mostrou foi um leito uniforme de lama vermelha. Nada.

Apertei as mãos no parapeito, varrendo a lanterna em todas as direções. O silêncio me matou mais do que a dúvida. O coração corcoveava e minha boca encheu-se de ácido. Desejei que a chuva voltasse logo para mandar embora o silêncio e a sensação de estar sendo observado, e pensei que se desse um tiro ou outro para o alto talvez me sentisse melhor.

Foi então que ouvi o barulho na mata, o crescendo de pequenos estalos surdos avançando na minha direção, e dei graças porque achei que fosse chuva. A primeira pedra, estranhamente, caiu bem na palma da minha mão e lembro de tê-la fitado por um instante ou dois na luz da lanterna antes de entender. Então vieram as outras.

Caí de costas, e lembro de ter visto as estrelas entre as nuvens que se abriam.

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28/10/2005

Confessionário

Estocado às 05:46 em
por Paulo [brabo!]

– Me perdoe, padre, que eu pequei.

– Você de novo aqui, meu filho?

– É sobre a minha confissão de ontem, padre. Preciso me confessar.

– Sobre a sua confissão?

– Pois é, tenho de confessar sobre a minha confissão. Era mentira. Confesso que confessei em falso.

– Mentira? Você está querendo dizer que veio aqui ontem se confessar e pedir perdão de algo que não fez?

– Exatamente.

– Mas esse também é um pecado muito grave, homem de Deus!

– É por ser grave que estou aqui. Pra confessar sobre a minha confissão.

– Ah, meu filho, com essas coisas não se brinca. Esse seu pecado de confessar uma mentira é tão sério que chega a ser quase mais grave do que se você tivesse feito mesmo o que confessou ontem que fez. Mas me diga, homem, por que você fez uma coisa dessas? Por que confessou uma mentira?

– Porque sou covarde, padre, e fico com vergonha de não ter nada de grave pra confessar. Achei que confessar uma barbaridade que eu nunca tinha feito, como aquela que confessei, pudesse me dar uma aura, assim, romântica. Minha vida é totalmente sem graça, mas com a minha confissão pelo menos o senhor ia pensar em mim como um personagem dramático, um sujeito atormentado pela culpa.

– Pois você querer isso é pecado também, meu filho, e precisa ser confessado.

– E não estou confessando? Mas confesso também que vim me confessar só por ostentação, sem fé.

– Pois eu preciso confessar que já imaginava isso, meu filho.

– É mesmo?

– Sim, só pelo seu jeito. Como você há muitos, que vem aqui confessar uma mentira só pra que ninguém fique pensando que eles são santos, frouxos, covardes. Mas fique sabendo que é pecado sério permanecer santo e se fazer de pecador, e pecado mais grave ainda não acreditar na eficácia da confissão!

– Pois tenho coisa mais grave pra confessar, padre, e desse pecado estou mesmo arrependido.

– Mais grave ainda? E qual é, meu filho?

– Veja, padre. Quando vim ontem confessar para o senhor que tinha feito aquilo que eu disse que fiz, era mentira. Era mentira, mas ontem.

– E hoje não é mais?

– Não. Confesso que fiz hoje hoje aquilo que confessei ontem que fiz mas não tinha ainda feito.

– Ah, penitência! Eu é que tenho de confessar que nunca vi uma coisa dessas! Se você não tinha cometido o pecado quando confessou ontem, por que resolveu cometer esse pecado justamente hoje?

– Porque o senhor me perdoou, padre! Pensei que como o senhor já tinha providenciado perdão para o meu pecado, não fazia mais diferença deixar de cometer ou não. Fui lá e fiz. Está vendo, padre, que cafajeste que eu sou? Que homem desgraçado!

– Não precisa chorar, não, meu filho, que somos todos pecadores. Deus vai certamente lhe perdoar.

– Eu não mereço perdão, padre. Desculpe tomar o seu tempo. Eu tenho de ir embora logo que não quero estar dentro da igreja quando for tirar a própria vida.

– Que é isso, meu filho, guarde essa arma! Que pecado mais terrível esse seu! Você pensar em suicídio já é muito ruim, mas você me trazer um revólver pra dentro da casa de Deus…

– Eu sei que é coisa grave, mas sei também como usar esse 38 aqui. Por isso vou acabar logo com essa agonia e apagar de vez esse pecador desgraçado que sou eu mesmo. Dessa vez eu não me escapo! Estou indo, seu padre, e desculpe alguma coisa.

– Espere, espere. Sente aqui só mais um minutinho, meu filho. Espere. Você sabe que o suicídio é pecado que não tem perdão, não sabe?

– Sei muito bem. É por isso que vou fazer. Confesso que não acredito que mereça perdão.

– Pois se você confessar esses maus pensamentos, o perdão é coisa que se arranja…

– Sem essa, padre. Não confessei isso ainda, mas já matei muito cafajeste por menos, e seria injusto com eles se eu não matasse o maior de todos, que sou eu. Isso é que seria imperdoável.

– Não, meu filho, não se mate, por favor. Não faça uma loucura dessas, não depois de se confessar comigo. Se você se matar eu vou me sentir eternamente culpado, por não ter conseguido fazer nada para evitar.

– O senhor, culpado, padre? E por causa de um traste como eu? Vai por mim, padre: o senhor nunca fez nada de errado, Deus com certeza vai lhe perdoar.

– Pois eu não sou o santo que você está pensando, meu filho. Só vou me abrir com você pra ver se você esquece essa idéia abominável de tirar a própria vida. Sabe aquele pecado que você confessou ontem sem ter feito e cometeu hoje por já ter confessado? Aquele pecado particularmente grave?

– Sei.

– Pois eu confesso que cometo o mesmo pecado, meu filho. E com freqüência.

– Verdade mesmo, seu padre?

– Verdade verdadeira. Está vendo? Agora guarde essa arma.

– Pois eu guardo sim e na hora, mas tenho uma última coisa a confessar. Deus me perdoe, mas não sou quem dei a entender que era. Sou na verdade um enviado do Vaticano, e se falei todas essas mentiras e ameacei me matar foi só pra investigar esses boatos que estavam correndo a seu respeito, padre. Pra levar o senhor a confessar.

– E eu também tenho uma confissão a lhe fazer, meu filho. Eu não sou padre, sou um anjo do céu disfarçado, enviado para testar a sua capacidade de perdoar.

– Ah, você também é anjo? E eu aqui, perdendo o meu tempo!

E foram, anjo para um lado, padre para o outro.

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23/10/2005

O valente que domou a Mocidade

Estocado às 06:39 em
por Paulo [brabo!]

Em Canindé me contaram esta história, que repito com os ajustes que a memória solicitar.

No sertão os cantadores ainda cantam o romance de Amâncio Ferreira de Icó, o valente que domou a Mocidade. Amâncio era homem duro e calado, vaqueiro à moda mais clássica, gago, franzino de constituição, mas firme como carne de galo velho.

– Amâncio de Icó amarrava touro era pelo rabo – disseram-me. – Se peleava era de cachorro beber sangue.

Foi valente e famoso nas corridas de mourão do seu tempo, nome conhecido nas feiras da década de 1940, mas quebrou-se quando a esposa fugiu com um vendedor de colheres de pau, deixando para trás o marido, sete filhas e doze cabras.

Amâncio largou as filhas com a mãe em Juazeiro e foi se esconder num sítio entre Saboeiro e Poço Grande, na companhia das cabras e de um jegue velho chamado Muletão. Passaram-se vinte anos.

Foi de dois ou três matutos que vieram pedir água (quando um pau-de-arara quebrou no caminho de Iguatu), que Amâncio ouviu pela primeira vez a história do boi chamado Mocidade. O animal já era lenda quando o velho Amâncio ouviu falar dele. Mocidade era um touro taludo, danado e desaforado, preto como a noite e com uma mancha em forma de estrela espalhada no peito. Nasceu de uma vaca morta na fazenda Aroeira Grande em Trussu. Acharam o filhote vivo mas coberto de sangue e agarrado num mandacaru; quando sobreviveu deram-lhe o nome de Mocidade, dizendo que tinha de ser filho do cão ou do fazendeiro Genésio Fontes, distinção que na época não se fazia questão de fazer.

Virado desde o ventre, não havia quem pudesse com Mocidade. Agoniado e violento, o boi espalhava no ar qualquer um que se metesse no seu caminho, sem dar conta de experiência, valentia ou reputação. Os homens mais rijos na vaquejada em Trussu não puderam derrubá-lo, e quando treze peões resolveram picá-lo na véspera da chegada do valentão Josué Dias, Mocidade arrastou todos os treze pelas fogueiras do acampamento, atravessou os paus da cerca como quem anda pela chuva e sumiu na noite.

Conta meu compadre Zuca, de Canindé, que ouviu de um dos três matutos que ouviram do próprio Amâncio, que o vaqueiro nessa hora estalou a língua, enfiou na boca um capitão da paçoca de farinha de milho que estavam repartindo e confessou:

– A vida me secou os ossos, mas ainda sinto na boca os beijos da mocidade. Quero quebrar a maldita.

Foi assim que Amâncio de Icó se pôs à caça da Mocidade perdida, na figura do boi mais amolestado que se diz ter riscado o sertão do Ceará. Veio de vila em vila, perguntando nas feiras, parando cada destacamento, sondando os vaqueiros e ladeando as vaquejadas. Ouviu finalmente a notícia de um boi preto virado na peste que corria como assombração nos pés-de-serra do Araripe, e partiu para o Cariri, fazendo promessa de só entrar na cidade do Padre depois de derrubar o animal que tanto buscava.

Ouvindo que o touro vinha se derrubando de Nova Olinda na direção de Juazeiro, Amâncio acampou-se junto de um açude na entrada do Crato, na esperança de que o bicho fosse deste mundo e parasse para beber água. Numa espraida noite de lua crescente Amâncio ouviu o tropel desembestado do animal que se aproximava e mergulhou no açude, respirando por uma taquara.

Assim que o boi colocou o focinho na água o velho Amâncio perfurou-lhe as duas ventas com um gancho de ponta afiada, à moda de argola, usando também as pernas para escalar-lhe o pescoço. Possuído, o animal saiu em disparada, corcoveando e urrando com Amâncio pilotando-lhe os chifres. O gancho que o vaqueiro prendeu às fuças do boi estava preso a uma longa corrente; na corrida a corrente ia levantando um grande rastro de poeira, que na noite clara se via desde Juazeiro.

As mãos agarradas aos chifres do boi, Amâncio mostrou os dentes e sussurrou-lhe ao ouvido:

– Mocidade maldita, que me abandonou? Não te largo se tu não me devolver o vigor que tirou de mim. Estou velho mais sinto ainda os beijos que você me roubou. Devolve! Devolve tudo, féla de uma égua, se não te quebro!

Como o touro não dava qualquer sinal de cansaço, Amâncio Ferreira recolheu a corrente, girou-a no ar e arremessou-a na direção de um poste de luz pelo qual estavam passando. O vaqueiro pulou para longe e saiu rolando em segurança pelo chão, enquanto a corrente que ele havia atirado prendia-se no poste com três laçadas firmes.

Foi só quando a corrente esticou-se no máximo que o boi parou de correr. Não foi preciso dizer nada: o gancho abriu-lhe as ventas em duas, e o boi, desequilibrado, saiu capotando e quebrando todas as pernas pela noite velha do sertão. Quando parou foi com um baque surdo e pra não se mexer mais.

Morreu agarrado a um mandacaru, da mesma forma que nasceu.

Amâncio entrou em Juazeiro, de onde também não saiu mais. Casou-se com uma menina ainda muito moça, com quem teve três bacorinhos. Morreu velho, desdentado, rindo à toa e contando sempre a mesma história.

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5/5/2005

Matinais

Estocado às 06:27 em
por Paulo [brabo!]

Certa manhã, logo depois das matinais, um monge recebeu uma incumbência que o obrigava a atravessar um pequeno pomar a alguma distância do Monastério. Avançando rápido pelo caminho orlado de flores, tendo o espírito ainda exaltado com as leituras e salmos que havia acabado de recitar com seus companheiros, o monge orou ao Senhor pedindo que ele lhe concedesse a graça de experimentar uma migalha que fosse dos prazeres do paraíso.

Nesse ponto, já na orla do pomar, um pássaro cantou, e o seu canto era tão lírico e pungente e belo que lágrimas brotaram imediatamente nos olhos do monge. Ele parou para escutar, e enquanto o passáro cantava foi como se o tempo parasse. Esse momento durou trezentos anos.

Quando o canto do pássaro cessou o monge percebeu que tudo havia mudado à sua volta. O pomar era agora um pátio entulhado com carcaças de animais ou de enormes ferramentas que ele desconhecia. O caminho orlado de flores era agora uma valeta fedorenta pela qual escorria um líquido viscoso e negro.

Apavorado, o monge partiu depressa, percorrendo como podia o caminho de volta ao Monastério, escalando muros, evitando multidões que o ignoravam, desviando-se de engenhos que nunca tinha visto antes. Para seu horror, na elevação em que antes erguia-se o complexo do Monastério espraiavam-se agora os tentáculos de algum edifício abominável que roncava como um leviatã e despejava no céu um torvelinho pavoroso de fumaça.

Quando tudo ficou explicado o monge viveu ainda trinta e um anos, tempo que passou tentando diligentemente convencer os que encontrava a não começar o dia sem pelo menos um Domine Deus. Ele morreu numa agonia de depressão, sem que houvesse quem soubesse prestar-lhe os últimos ritos.

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10/2/2005

Os agentes da ANA

Estocado às 06:40 em
por Paulo [brabo!]

Recebi hoje o memorando. Meus superiores permitem finalmente que eu fale, desde que divulgue como ficção. Não acredite portanto em nada, porque se você insistir vou ter de negar – negar tudo, até mesmo que era verdade que eu estava mentindo em primeiro lugar.

Desde 1982 sou agente da organização mais secreta do Brasil (e, gostamos de pensar, do mundo): a ANA, Agência Nacional de Acobertamento. A ANA faz parte da tradição das sociedades mais secretas do mundo; daquelas duas ou três sociedades tão secretas que nenhum dos membros conhece qualquer outro membro, nem mesmo o esquivo sujeito que o recrutou. Os rosa-cruzes, os templários e a maçonaria não são apenas fichinha em comparação – eles na verdade trabalham pra nós.

A razão de ser da ANA, nosso objetivo primário e que explica o termo “acobertamento”, é manter oculto de todos os brasileiros o segredo mais bem escondido de todos: que o Brasil é na verdade, e há muito tempo, a maior potência tecnológica, cultural e política do planeta; que o Brasil e os brasileiros tiveram participação vital em todos os importantes avanços tecnológicos, movimentos culturais e manobras políticas internacionais dos últimos cinco séculos; que é o Brasil que lidera o bloco das nações do Bem na luta contra as nações do Mal, sendo que gente como os Estados Unidos e Israel são apenas marionetes nas nossas mãos (aquilo que na ANA chamamos de “potência-fachada”); que os líderes mundiais e a elite cultural do planeta olham para o Brasil com assombro, sincero respeito e um brilho sentido de esperança nos olhos, porque sabem que dependerá da nossa iniciativa qualquer incremento de justiça, de ciência, de cultura, de civilização e – em última instância, de paz – para o nosso cansado mundo.

É esse, em mal traçadas linhas, o segredo que temos de ocultar de todos os brasileiros – e, em menor grau, do resto do mundo.

Como você pode ver, até agora temos conseguido.

Só não imagine para os agentes da ANA uma rotina tranqüila de funcionário público (fomos nós também que espalhamos essa mentira), porque nosso trabalho não é mole não. Você não sabe, mas o Brasil é sempre destaque nos acontecimentos internacionais, e é esse o nosso problema. Nós ralamos diariamente para que você, brasileiro, permaneça ignorante da verdade, sem jamais chegar a conhecer a verdadeira versão dos fatos. Damos duro para que você continue acreditando que o mundo corre o seu curso à revelia do gigante nacional. Quando penso quão grande é a mentira e o quanto é improvável alguém acreditar nisso, é que vejo como é grande e fundamental o nosso trabalho.

VOCÊ SABIA…
Que a letra do Hino Nacional Brasileiro foi alterada secretamente pelo dedo de um agente da ANA em 1922? Um decreto-lei que passou despercebido introduziu a hoje conhecida frase “Deitado eternamente em berço esplêndido”. A letra original dizia “Ousado e navegando sempre à frente”.

Os exemplos são tantos. Deixe-me ver. Se você não ficou sabendo que o disco voador que caiu em Roswell, Novo México, em 1947, era brasileiro, o mérito é da ANA. Se você acha que Gandhi não era nordestino, nós fizemos a sua cabeça. Se você pensa que o primeiro satélite a ser lançado no espaço foi russo, parabéns, a sua fé é maior do que a minha. O primeiro computador portátil? Nós. E, acima de tudo, se você acredita que o Brasil realmente perdeu aquela eliminatória contra a Itália na Copa de 1982… bom, você não imagina o trabalho que isso deu.

As posições hierárquicas dos membros da ANA são definidas por letras gregas (língua que, a propósito, nós mesmos inventamos para preencher a lacuna do desaparecimento da Atlântida – mas isso já é outra história). Meu codinome é Brabo, e sou um ANA ALFA – isto é, tenho a graduação máxima. Outros agentes mais conhecidos da ANA, como o Diogo Mainardi, o Arnaldo Jabor e o Wanderley Andrade são ANA TETAS, todos eles. Antônio Carlos Magalhães é ANA ALFA como eu, bem como o Bispo Edir Macedo e mais uma meia dúzia que é melhor você não saber. Adriane Galisteu é ANA LAMBDA, a Xuxa ANA IOTA e a Ana Maria é BRAGA.

Resumindo: se você é daqueles que acham que o Brasil não vai pra frente – pois é, fique sabendo que há uma multidão de heróis anônimos por trás disso daí. Não pense que é fácil projetar essa imagem de incompetência por tanto tempo.

Ou, como eles dizem em inglês: me engana que eu gosto.

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20/11/2004

Paciente

Estocado às 10:38 em
por Paulo [brabo!]

O paciente entra no consultório e fecha a porta atrás de si.

– Boa tarde – ele estende a mão para cumprimentar. – Tudo bem?

– Tudo – garante o médico, mas responde o cumprimento com a mão suada, a voz denunciando uma cultivada ansiedade.

– Desculpe a demora – diz o paciente, refestelando-se desinibidamente na poltrona, – estava atendendo o médico do consultório ao lado.

– O Dr. Renato? Tudo bem com ele?

O paciente balança a cabeça como um pêndulo para responder, num gesto que o médico interpreta como querendo dizer “mais ou menos” – ou, talvez, “isso não é assunto seu”.

– Mas e com você – o paciente quer mudar a direção da conversa. – Tudo bem?

– Estou esperando que o senhor me diga – revela o médico, sentando-se nervosamente na cadeira de couro preta, as mãos muito peludas cruzadas sobre a mesa.

– Já vamos ver isso – diz o paciente, ao mesmo tempo em que baixa os olhos e passa a examinar distraídamente a pilha de revistas em cima da mesinha próxima. – Pode tirar a roupa, por favor, e sente ali na mesinha.

O médico levanta e, sem uma palavra, começa a tirar a roupa: o paletó branco, a gravata riscada, a camisa de linho, a camiseta, o sapato de couro alemão, as meias inglesas, a calça de corte italiano, a cueca preta – colocando as peças metodicamente dobradas sobre o tampo de vidro da mesa, junto da placa que leva o seu nome e sua especialidade.

Quando o médico está inteiramente nu, sentado desajeitadamente na beirada da mesinha de exame, o paciente levanta-se da poltrona, dá um breve sorriso de simpatia e começa.

O exame não demora mais que dez minutos. Com a perícia desinteressada de quem já fez aquilo inúmeras vezes, o paciente estuda a superfície do médico, sua elasticidade, seus ecos, suas reações. Ele pisca incertamente para os seus orifícios, apalpa gentilmente mas sem nenhuma paixão as suas mucosas, esquadrinha os espaços entre os dedos. O paciente passa dois minutos inteiros olhando sem dizer nada para os olhos cansados do médico. Ele aperta a cartilagem das suas orelhas, sente as veias do pescoço, apalpa os braços como que à procura de alguma coisa. Massageia as mãos de palmas suadas, examina a textura dos joelhos, as dobras do pênis. Ele golpeia gentilmente as costas muito brancas, arranha a sola do pé.

Depois, a expressão do rosto inteiramente desapaixonada e austera, como se tivesse dado conta de um balanço de estoque e não do exame de um ser humano, ele dá a coisa por terminada.

– Pode vestir a roupa novamente, por favor – ele anuncia, e acrescenta: – Posso sentar um minuto na sua cadeira?

– Pode – declara o médico, entre o receoso o ressentido. Ele tira a pilha de roupas de cima da mesa e começa rapidamente a vesti-las, como que para apagar do ar da sala qualquer vestígio da sua nudez, enquanto o paciente pausa com a caneta na boca diante do bloco de notas que acabou de tirar do bolso.

O médico já está terminando de amarrar os sapatos e o paciente ainda não escreveu nada na sua receita.

– E então? – o médico finalmente pergunta, voltando a sentar-se na mesinha de exame. – Tudo bem?

O paciente aperta os lábios e olha o médico nos olhos.

– Olha, doutor, exteriormente está tudo bem.

– Mas… – o médico cruza os braços, como que para receber o impacto de qualquer má notícia. – Pode me dizer.

O paciente reclina-se na cadeira, cruzando os braços atrás da cabeça.

– Mas quando encostei o ouvido no seu peito ouvi algo que me preocupou.

Sem descruzar os braços, o médico inclina-se para trás e deita-se silenciosamente na mesinha.

– Eu sei o que é – ele desabafa. – Eu mesmo posso dizer.

– Diga, então – pede o paciente, gentilmente, apoiando os antebraços sobre a mesa e repousando sobre eles o queixo.

Ainda deitado, os olhos fitando nervosamente o teto como que procurando uma resposta, o médico confessa em voz trêmula:

– É o coração.

O paciente desvia os olhos e sorri sem graça para os próprios dedos, mas não replica.

Depois de uma longa pausa, durante a qual não moveu um músculo, o médico arrisca:

– Tem cura?

– Ah, doutor – sorri o paciente, balançando devagar a cabeça – nada tem cura e você sabe disso.

E logo depois, levantando-se do lugar:

– Mas posso lhe dar uma receita. Se você quiser.

O médico ergue-se depressa da mesinha e descruza os braços.

– Uma receita é coisa quase tão boa quanto uma cura – ele não se envergonha de celebrar.

– Especialmente para o coração – lembra o paciente, a caneta erguida como um copo de chope.

O paciente escreve por um segundo no seu bloco de receitas, arranca a página, dobra rapidamente e aperta-a com as duas mãos numa das mãos do médico.

– Agora, doutor, ouça com atenção. A vida cobrou-lhe um preço pesado e, em grande medida, injusto. Cada pessoa curada custou-lhe um pedaço do coração; as que não foram curadas, Deus nos ajude, custaram-lhe algo ainda mais precioso, coisa que nós dois sabemos – o paciente respirou fundo, os olhos fixos nos do médico, demandando toda sua concentração. – Agora sobre o que resta: nesta folha de papel escrevi uma palavra, uma única palavra. Quero que você a leia assim que eu sair da sala. Se você sorrir e entender e se tudo der certo, e por nós dois rezo ardentemente que sim, essa única palavra poderá lhe fornecer por longos dias o necessário para refazer os curativos do seu coração. Não esqueça de que a boa notícia, talvez a única boa notícia, é aquilo que sabemos desde o princípio: mesmo onde não há cura, os curativos podem sempre ser trocados. Boa sorte.

E saiu da sala.

O médico respirou fundo e sentou-se na sua própria cadeira, sozinho em seu próprio consultório. Ele desdobrou a folha com olhos marejados e mãos trêmulas, deu um gemido profundo cheio de todas as angústias e leu a palavra.

Ela surprendeu-o imediatamente, e o fez levar a mão à boca, e fez com que ele se sentisse como não se sentia há muitos, muitos anos. A palavra o fez sorrir.

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26/8/2004

O Último Adelfi

Estocado às 06:59 em
por Paulo [brabo!]

A vida de cada homem gira sempre em torno de um único período de tempo, um período circunscrito no intervalo de poucos meses, que define para sempre quem somos e o que iremos fazer. Tudo que acontece antes ou depois é avaliado e observado a partir da perspectiva dAqueles Dias. De certa forma, nada mais acontece na vida de uma pessoa, a não ser o que acontece nAqueles Dias. O que veio antes é um breve prólogo; o que vem depois é, na pior das hipóteses, uma longa e elaborada nota de rodapé; na melhor, um pungente álbum de fotografias. Para uns poucos, a vida inteira é uma homenagem, uma intensa celebração Àqueles Dias.

Para Rui Moreira Lima esse momento, esse fulcro ao redor do qual a sua vida havia sido mapeada, eram os dias do 1º Grupo de Aviação de Caça, o seu glorioso, assombroso e terrível período como piloto de caça da FAB na Segunda Guerra Mundial. Era esse o buraco negro que sempre o atraía, a cena do crime à qual ele voltava, o palco onde se passava cada cena da sua ópera.

Hoje ele era o respeitável Major Brigadeiro do Ar Rui Moreira Lima, reformado; mas no íntimo, no fundo do coração, ele era ainda o Rui, o afobado e inquieto Rui dAqueles Dias, sempre com uma opinião para dar, o coração na mão, uma lágrima eterna ameaçando rolar sem motivo pelo rosto.

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Sinto-me jovem o bastante para ter ainda de medo de parecer piegas, e O Último Adelfi é sem dúvida alguma a coisa mais piegas que já escrevi. É apenas tremendamente sincero, e é só isso que me leva a tomar coragem e levantar este conto das minhas coisas que creio não vale a pena publicar.

Tudo no conto é verdadeiro, inclusive minha evidente admiração pelo assunto e pelo protagonista – exceto, que eu saiba, o encontro entre Rui e a fictícia Clarice. Se você ainda não viu o documentário Senta A Pua, sobre a participação da FAB na Segunda Guerra Mundial, procure ver.

Troquei alguma correspondência com o Rui alguns anos atrás depois de ler o seu pungente Senta A Pua (o livro). O cara é gente finíssima, ainda mais que o documentário consegue mostrar.

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