23/9/2005

Simple face

Estocado às 06:52 em
por Paulo [brabo!]

Há um ano atrás, na primeira vez em que mencionei o Julian aqui na Bacia, escrevi que ele era um cara simples. Acontece que o Julian lê meu português impecável com a intermediação de um tradutor automático, que traduziu a expressão “cara simples” de forma muito singela e sensata – simple face.

Lembro que alguns dias depois, no messenger, ele mencionou o quanto havia gostado de ser chamado de simple face, e perguntou exatamente o que a expressão queria dizer. Respirei fundo e escrevi (em inglês) que cara simples é uma pessoa legal, um sujeito despretensioso, um indivíduo acessível. Ele logo pediu que eu parasse, dizendo que simple face explicava melhor o que eu estava querendo dizer.

Desde então o Julian adotou a expressão e volta com freqüência a ela. “Fulano”, ele diz de algum amigo seu, “is a simple face.” Quando falou-me sobre o artista Dan Zanes, com quem esteve na semana passada em Nova Iorque, Julian descreveu-o apenas como “very simple faced” – como se isso explicasse tudo, e talvez explique.

Outra coisa importante que aconteceu ao Julian na semana passada foi que ele teve a oportunidade de pegar nas mãos seus primeiros cordéis de verdade – da coleção pessoal do badaladíssimo quadrinista Art Spiegelman, que ele estava visitando. Meu amigo descreveu os livrinhos com três adjetivos muito bem escolhidos: tiny, greasy, cheap paper – minúsculos, ensebados, papel barato.

Era por causa daqueles livrinhos ensebados e seus improváveis artesãos, ele deve ter se forçado a refletir, que ele estava pronto para atravessar o Atlântico. Ele estava em Nova Iorque, mas já experimentava de antemão que os cordéis são, eles mesmos, very simple faced.

Naturalmente, foi isso que o atraiu neles.

E talvez em mim, mas isso ele só vai ter certeza quando me conhecer.

FALTA 1 DIA PARA A EXPEDIÇÃO CORDEL

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9/9/2005

Ir ir

Estocado às 06:11 em
por Paulo [brabo!]

São poucos brasileiros que conheço que usam o Futuro do Presente a seco, da forma como ele aparece fossilizado nos livros. Queremos parecer menos afetados (e, suspeitam alguns, mais americanos) e recorremos incessantemente ao atalho do verbo ir.

Fora honrosas exceções, no diálogo informal não dizemos “transferirei a ligação”, mas “vou transferir a ligação”.

Não dizemos “ele ficará uma fera”, mas “ele vai ficar uma fera”.

Não dizemos “o professor entregará as notas”, mas “o professor irá entregar as notas”.

Essas liberdades que tomamos de ignorar um tempo verbal inteiro já me confundiram e muito. Certa vez, depois de travar irremediavelmente diante da mais simples das orações, recorri ao serviço do telegramática: “Qual é a forma certa”, implorei ao sujeito que me atendeu: “o homem vai viajar” ou “o homem irá viajar”?

Por dois ou três reais que caíram imperceptivelmente na conta telefônica, oraculou-me aquele anônimo gramático que as duas formas estão corretas. Aparentemente, tanto faz. O homem irá ou o homem vai – de uma forma ou de outra.

Você vai ir?

A nossa liberdade do cativeiro Futuro do Presente, garantida pela intermediação multitarefa do verbo auxiliar ir, gerou inúmeras excentricidades. Foi o Juliano (que trabalhou ao meu lado alguns inesquecíveis meses na SK, hoje é tatuador e de vez em quando deixa uma esmola aqui na Bacia) que apresentou-me sem querer a que considero a mais preciosa delas: a locução verbal ir ir.

Para tocar horror, e por saber o quanto me agradavam gírias e modos de falar pitorescos e/ou inesperados, lembro que o Juliano recorria o tempo todo ao ir ir.

– Você vai ir, Purim? – ele perguntava candidamente, referindo-se a alguma festa.

E, antes que eu pudesse responder, ele mesmo sentenciava, já dispensando toda a idéia:

– Eu ia ir, mas não vou ir mais.

Acrescentei imediatamente o ir ir ao meu rosário pessoal de gírias e falares e uso até hoje, nunca sem nostalgia pelo seu inventor. No que depender de mim, vou ir usando indefinidamente.

Se você se sente incomodado, vá ir ver se eu estou na esquina. Eu devia querer ir ir junto, mas não quero ir ir por enquanto.

Comenta, por e-mail, meu amigão Moisés Cantos:

Péra um minutinho que já VOU INDO!

E aí, neném, belê?

Pois é, a nossa língua tem dessas mesmo. O papa da língua portuguesa, Pascoale Cipro Neto, diz que essa capacidade que a nossa “língua portuguesa brasileira” tem de se adaptar à nova realidade é que a diferencia daquela que é falada na “terrinha” do seu Manoel. É o jeitinho brasileiro atuando em uma área em que a maioria tem mais dificuldades: a língua. Por isso, não se chateie, pois as coisas vão indo desse jeito mesmo.

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29/4/2005

A primeira hora

Estocado às 06:27 em
por Paulo [brabo!]

Outro dia fiquei de entregar uma ilustração na “primeira hora” do dia seguinte e fiquei pensando nas implicações da expressão.

Em geral a primeira hora é, felizmente, bastante flexível. Numa agência de propaganda, sei por experiência própria, combinar a coisa para a primeira hora equivale a dizer (a não ser quando especificado de outra forma, o que acontece raramente) “depois das nove da manhã”. Sendo antes das dez creio que é considerado ainda primeira hora.

Outros ambientes podem não ser tão tolerantes, mas creio que para todos apelar para a primeira hora é um jeito de evitar a indelicadeza de lembrar a outra pessoa (e especialmente nós mesmos) que teremos os dois de acordar às seis da manhã no dia seguinte para estarmos às oito onde deveríamos estar. Um eufemismo corporativo, que para os mais desavisados poderia significar “apareça aí depois que você acordar”, mas que está na verdade mais para “amanhã cedo na minha mesa” ou “o que você faz da meia-noite às seis?”

A primeira hora é de certa forma a pior hora de todas e, é claro, especialmente na segunda-feira. A primeira hora da segunda-feira é implacável, e apóio de coração aqueles que propõem que ela deveria ser eliminada de todo.

Especialmente quando você chega no trabalho e tem alguém em pé esperando por você na recepção. Com uma pasta.

Como tanta coisa fica marcada para a primeira hora, creio que todos concordamos que talvez fosse pertinente que a Diretoria lançasse uma campanha interna para que encontros importantes começassem a ser marcados para a última hora. Da sexta-feira, naturalmente.

Você passaria a ouvir (se é que já não ouve) coisas do tipo:

– Não esqueça que o gerente quer conversar com você na última hora.

Só por precaução, não abra hoje nenhum memorando suspeito.

Deixe para a última hora.

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15/4/2005

Gueimovar

Estocado às 06:05 em
por Paulo [brabo!]

Que mundo.

Eu estava na casa da Dona Hulda jogando videogame com as sobrinhas do Hélio: Talita, Raquel e Letizia. A principal atividade era torcer para que alguém perdesse de uma vez para que você pudesse sair da fila e assumir o único joystick sobrevivente por alguns minutos.

Em algum momento, eu que já estava meio entediado e buscando na mochila um livro para remoer, ouvi a Talita celebrar:

– Pronto, minha vez. Você gueimovou.

Demorei um microssegundo para entender que gueimovar é perder o jogo. Gueimovar é encarar um game over.

Que mundo.

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3/4/2005

Tá vendo

Estocado às 06:11 em
por Paulo [brabo!]

Outro dia eu estava jogando de bola com o Arthur, que andou tendo umas aulas com o Dinho e já chuta melhor do que eu (o que, neste caso específico, não é tão notável assim).

– Nossa, que chutão, cara! – eu disse em determinado momento, e era verdade.

Segundos depois foi a vez dele me elogiar (não era verdade):

Nossa, que chutão, cara! – ele disse.

E, dois segundos depois, como se eu não estivesse realmente prestando a devida atenção:

– Tá vendo como eu também falo cara?

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1/4/2005

Sem noção

Estocado às 07:49 em
por Paulo [brabo!]

Tudo bem, então. Deixe-me reassumir a minha missão civilizatória antes que o mundo afunde novamente num caos informe de trevas completas.

Alguém talvez lembre que eu já me perguntei anteriormente se algum gênio teria percebido antes de mim que a gíria é uma espécie espontânea e revigorante de poesia popular. Naturalmente, alguém percebeu.

Em 1892 o rebelde poeta americano Walt Whitman, celebrado autor de Leaves of Grass, descreveu a gíria como “um arranque de fantasia imaginação e humor, soprando em suas narinas o sopro da vida” e espalhando “riquíssimos flashes de humor e genialidade e poesia”.

O “sopro da vida”, é claro, é o poder criativo e regenerador das novas idéias; nesse sentido é a gíria é o soro que mantém línguas velhésimas vivas artificialmente. Somente as línguas que não se reinventam morrem.

Por isso, quando você usa gíria está, mesmo sem perceber, contribuindo para salvar o seu próprio idioma com o sopro renovador da reinvenção e da poesia. Se você quer que a sua língua morra e caia no esquecimento, fale e escreva certinho.

Mó sem noção.

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24/1/2005

Bolacha, chimia e cuque

Estocado às 06:41 em
por Paulo [brabo!]

Bolacha: termo mais comum que biscoito
Chimia: nome derivado do alemão para designar qualquer doce em pasta para passar no chineque
Cuque ou kuke: espécie de torta recoberta de farelo de maçã ou banana

Boa lista de gírias de Curitiba.

Mais linguagem popular do Paraná.

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