9/11/2005

Vertente

Estocado às 05:56 em
por Paulo [brabo!]

O pedido havia chegado há três dias, mas a chuva não parava. Gastei a tarde dobrando cuecas e descascando laranjas para fazer doce.

A chegada do velho Ismael tirou-me da cama às oito da noite. Dizia que as coisas haviam piorado, que as pedras vinham de todas as direções e de nenhuma. Que eu devia vir assim mesmo apesar da chuva, que o rio não parava de engrossar e logo engoliria todas as pontes. O velho Ismael estava tão apavorado que tive de deixar que ele dormisse acocorado na poltrona, no meu próprio quarto, que ele se recusava a ficar sozinho. Durante a noite seu pé descalço virou no chão a xícara de chá.

Partimos na manhã seguinte, debaixo de chuva grossa. Adiante da Dobradeira resolvemos tomar a ponte dos Stokel, que Ismael havia usado na noite anterior e que talvez fosse a única que restava. O entulho da corrente raspava como garras o fundo da ponte nova de madeira verde, mas as vigas e colunas pareceram muito firmes. Quando deixamos o Cabeçudas para trás, na subida da tafona, a estrada virou uma rampa vermelha de lama. Demoramos a manhã inteira para vencer a vertente e chegar ao topo da serra.

Era três da tarde quando comemos toucinho e pão preto de banha na varanda do Mano Loé. Quando dissemos que íamos à missão da Alva a Jussara contou que tinha visto uma visagem no seu quarto na noite anterior. O Mano estava lá fora fechando uma brecha no cercado dos cabritos quando um homem muito gordo, quase redondo e com as roupas amarelas de lama seca entrou flutuando silenciosamente pela janela, os olhos muito abertos olhando como que através dela. A Jussara correu para fora e quando os dois entraram de volta o homem tinha desaparecido. Perguntei se a janela estava aberta com a chuva e ela disse que não, mas o homem tinha entrado flutuando pela janela assim mesmo.

O Mano me disse quando íamos embora que a Jussara estava com bucho e não vinha dizendo coisa com coisa.

Atravessamos a porteira da Alva depois das cinco. A chuva tinha parado, mas as nuvens escuras corriam empanturradas no céu com a barriga roçando a copa preta da mata.

Não vimos ninguém na entrada. A escola estava vazia, quase todas as janelas quebradas, o chão e as mesas cobertos de pedras pequenas e cacos de vidro. Fomos bater na casa do zelador, o Norde, que estava recolhido com a família com janelas e venezianas fechadas. Contou-nos que não havia luz e por isso a lâmpada de querosene e que o professor havia fugido naquela manhã e fazia uma semana que não havia aula.

Contou que tinha começado na tarde em que ele e o professor viram, de dentro da escola, um homem de chapéu olhando diretamente para eles na borda da mata. O homem desapareceu logo e as pedras começaram a vir daquela direção. Quando o professor José Renato pegou uma pedra para revidar foi atingido no pescoço por uma pedra que vinha de outra direção. As pedras vinham de todo lugar e às vezes pareciam mudar de rumo. O Norde contou ter sido atingido por uma pedra que havia entrado pela porta aberta e desviado para o canto em que ele estava atendendo o fogão. Caíam o dia inteiro, mas paravam à noite pouco depois que as luzes se apagavam.

Ficou decidido que eu dormiria sozinho na escola e Ismael numa rede na varanda de Norde. Nenhuma pedra caiu naquela noite, e nada ouvi de mais fúnebre que o lamento de um ouriço ou outro quando a chuva parava para recuperar o fôlego.

O dia clareou sem qualquer convicção para uma chuva fina, e enquanto a manhã avançava no serviço de limpeza da escola foi ficando evidente que as pedras não voltariam a cair. Resolveu-se que eu partiria depois do almoço para procurar o professor José Renato na casa dos seus pais em Orleans, e tentar convencê-lo a voltar. Norde dizia que ele não vinha.

Deixei Ismael, Norde, Rosa e as crianças na Alva, desviei o sítio do Mano e desci a serra capotando enxurrada abaixo. Parei na tafona abandonada para comer a tapioca que Rosa havia embrulhado. Lá embaixo a água amarela do rio cobria ponte, mas consegui atravessar e cheguei em casa perto das seis horas.

A chuva caía como uma parede. Não ventava porque a água era tanta que não sobrava espaço para o vento. Tomei banho e quando terminei de fazer o doce de casca de laranja eram duas da manhã.

Era o intervalo entre uma chuva e outra e ouvi um barulho no telhado; achei que fosse o gambá que vinha sumindo com as galinhas. Larguei as compotas de lado e assim que abri a porta vi o homem flutuando na direção dos pinheiros junto da porteira, redondo como uma uva e achei que voava de costas, olhando na direção da casa.

Quando voltei com a lanterna e com o velho revólver o homem havia subido mais e estava desaparecendo por trás das copas das árvores da curva da Dobradeira. Relampejava de vez em quando e vi com clareza que ele olhava fixamente para mim antes de desaparecer.

Assim que cruzei a porteira o céu desabou novamente. Contornei a Dobradeira na direção do pasto dos Stokel; segui olhando para a cima, para ver se entrevia o homem nas nuvens ou na copa das árvores. Achei que devia alertar o Alberto Gordo ou pelo menos sondar se ele tinha visto alguma coisa, mas fui seguindo na direção do rio.

Foi eu colocar o pé na ponte e a chuva parou de imediato, sem qualquer aviso ou transição, como se as represas do céu tivessem se esgotado por completo naquele instante. Dei um ou dois passos sobre a ponte e só se ouvia as minhas botas na madeira e as árvores pingando alternadamente.

Aquilo me gelou o estômago, porque eu devia estar ouvindo o barulho do rio e o silêncio era completo. Não havia ruído nenhum de água corrente. Desviei o facho da lanterna para onde deveria estar a corrente do rio, e tudo que a lanterna mostrou foi um leito uniforme de lama vermelha. Nada.

Apertei as mãos no parapeito, varrendo a lanterna em todas as direções. O silêncio me matou mais do que a dúvida. O coração corcoveava e minha boca encheu-se de ácido. Desejei que a chuva voltasse logo para mandar embora o silêncio e a sensação de estar sendo observado, e pensei que se desse um tiro ou outro para o alto talvez me sentisse melhor.

Foi então que ouvi o barulho na mata, o crescendo de pequenos estalos surdos avançando na minha direção, e dei graças porque achei que fosse chuva. A primeira pedra, estranhamente, caiu bem na palma da minha mão e lembro de tê-la fitado por um instante ou dois na luz da lanterna antes de entender. Então vieram as outras.

Caí de costas, e lembro de ter visto as estrelas entre as nuvens que se abriam.

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28/10/2005

Confessionário

Estocado às 05:46 em
por Paulo [brabo!]

– Me perdoe, padre, que eu pequei.

– Você de novo aqui, meu filho?

– É sobre a minha confissão de ontem, padre. Preciso me confessar.

– Sobre a sua confissão?

– Pois é, tenho de confessar sobre a minha confissão. Era mentira. Confesso que confessei em falso.

– Mentira? Você está querendo dizer que veio aqui ontem se confessar e pedir perdão de algo que não fez?

– Exatamente.

– Mas esse também é um pecado muito grave, homem de Deus!

– É por ser grave que estou aqui. Pra confessar sobre a minha confissão.

– Ah, meu filho, com essas coisas não se brinca. Esse seu pecado de confessar uma mentira é tão sério que chega a ser quase mais grave do que se você tivesse feito mesmo o que confessou ontem que fez. Mas me diga, homem, por que você fez uma coisa dessas? Por que confessou uma mentira?

– Porque sou covarde, padre, e fico com vergonha de não ter nada de grave pra confessar. Achei que confessar uma barbaridade que eu nunca tinha feito, como aquela que confessei, pudesse me dar uma aura, assim, romântica. Minha vida é totalmente sem graça, mas com a minha confissão pelo menos o senhor ia pensar em mim como um personagem dramático, um sujeito atormentado pela culpa.

– Pois você querer isso é pecado também, meu filho, e precisa ser confessado.

– E não estou confessando? Mas confesso também que vim me confessar só por ostentação, sem fé.

– Pois eu preciso confessar que já imaginava isso, meu filho.

– É mesmo?

– Sim, só pelo seu jeito. Como você há muitos, que vem aqui confessar uma mentira só pra que ninguém fique pensando que eles são santos, frouxos, covardes. Mas fique sabendo que é pecado sério permanecer santo e se fazer de pecador, e pecado mais grave ainda não acreditar na eficácia da confissão!

– Pois tenho coisa mais grave pra confessar, padre, e desse pecado estou mesmo arrependido.

– Mais grave ainda? E qual é, meu filho?

– Veja, padre. Quando vim ontem confessar para o senhor que tinha feito aquilo que eu disse que fiz, era mentira. Era mentira, mas ontem.

– E hoje não é mais?

– Não. Confesso que fiz hoje hoje aquilo que confessei ontem que fiz mas não tinha ainda feito.

– Ah, penitência! Eu é que tenho de confessar que nunca vi uma coisa dessas! Se você não tinha cometido o pecado quando confessou ontem, por que resolveu cometer esse pecado justamente hoje?

– Porque o senhor me perdoou, padre! Pensei que como o senhor já tinha providenciado perdão para o meu pecado, não fazia mais diferença deixar de cometer ou não. Fui lá e fiz. Está vendo, padre, que cafajeste que eu sou? Que homem desgraçado!

– Não precisa chorar, não, meu filho, que somos todos pecadores. Deus vai certamente lhe perdoar.

– Eu não mereço perdão, padre. Desculpe tomar o seu tempo. Eu tenho de ir embora logo que não quero estar dentro da igreja quando for tirar a própria vida.

– Que é isso, meu filho, guarde essa arma! Que pecado mais terrível esse seu! Você pensar em suicídio já é muito ruim, mas você me trazer um revólver pra dentro da casa de Deus…

– Eu sei que é coisa grave, mas sei também como usar esse 38 aqui. Por isso vou acabar logo com essa agonia e apagar de vez esse pecador desgraçado que sou eu mesmo. Dessa vez eu não me escapo! Estou indo, seu padre, e desculpe alguma coisa.

– Espere, espere. Sente aqui só mais um minutinho, meu filho. Espere. Você sabe que o suicídio é pecado que não tem perdão, não sabe?

– Sei muito bem. É por isso que vou fazer. Confesso que não acredito que mereça perdão.

– Pois se você confessar esses maus pensamentos, o perdão é coisa que se arranja…

– Sem essa, padre. Não confessei isso ainda, mas já matei muito cafajeste por menos, e seria injusto com eles se eu não matasse o maior de todos, que sou eu. Isso é que seria imperdoável.

– Não, meu filho, não se mate, por favor. Não faça uma loucura dessas, não depois de se confessar comigo. Se você se matar eu vou me sentir eternamente culpado, por não ter conseguido fazer nada para evitar.

– O senhor, culpado, padre? E por causa de um traste como eu? Vai por mim, padre: o senhor nunca fez nada de errado, Deus com certeza vai lhe perdoar.

– Pois eu não sou o santo que você está pensando, meu filho. Só vou me abrir com você pra ver se você esquece essa idéia abominável de tirar a própria vida. Sabe aquele pecado que você confessou ontem sem ter feito e cometeu hoje por já ter confessado? Aquele pecado particularmente grave?

– Sei.

– Pois eu confesso que cometo o mesmo pecado, meu filho. E com freqüência.

– Verdade mesmo, seu padre?

– Verdade verdadeira. Está vendo? Agora guarde essa arma.

– Pois eu guardo sim e na hora, mas tenho uma última coisa a confessar. Deus me perdoe, mas não sou quem dei a entender que era. Sou na verdade um enviado do Vaticano, e se falei todas essas mentiras e ameacei me matar foi só pra investigar esses boatos que estavam correndo a seu respeito, padre. Pra levar o senhor a confessar.

– E eu também tenho uma confissão a lhe fazer, meu filho. Eu não sou padre, sou um anjo do céu disfarçado, enviado para testar a sua capacidade de perdoar.

– Ah, você também é anjo? E eu aqui, perdendo o meu tempo!

E foram, anjo para um lado, padre para o outro.

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23/10/2005

O valente que domou a Mocidade

Estocado às 06:39 em
por Paulo [brabo!]

Em Canindé me contaram esta história, que repito com os ajustes que a memória solicitar.

No sertão os cantadores ainda cantam o romance de Amâncio Ferreira de Icó, o valente que domou a Mocidade. Amâncio era homem duro e calado, vaqueiro à moda mais clássica, gago, franzino de constituição, mas firme como carne de galo velho.

– Amâncio de Icó amarrava touro era pelo rabo – disseram-me. – Se peleava era de cachorro beber sangue.

Foi valente e famoso nas corridas de mourão do seu tempo, nome conhecido nas feiras da década de 1940, mas quebrou-se quando a esposa fugiu com um vendedor de colheres de pau, deixando para trás o marido, sete filhas e doze cabras.

Amâncio largou as filhas com a mãe em Juazeiro e foi se esconder num sítio entre Saboeiro e Poço Grande, na companhia das cabras e de um jegue velho chamado Muletão. Passaram-se vinte anos.

Foi de dois ou três matutos que vieram pedir água (quando um pau-de-arara quebrou no caminho de Iguatu), que Amâncio ouviu pela primeira vez a história do boi chamado Mocidade. O animal já era lenda quando o velho Amâncio ouviu falar dele. Mocidade era um touro taludo, danado e desaforado, preto como a noite e com uma mancha em forma de estrela espalhada no peito. Nasceu de uma vaca morta na fazenda Aroeira Grande em Trussu. Acharam o filhote vivo mas coberto de sangue e agarrado num mandacaru; quando sobreviveu deram-lhe o nome de Mocidade, dizendo que tinha de ser filho do cão ou do fazendeiro Genésio Fontes, distinção que na época não se fazia questão de fazer.

Virado desde o ventre, não havia quem pudesse com Mocidade. Agoniado e violento, o boi espalhava no ar qualquer um que se metesse no seu caminho, sem dar conta de experiência, valentia ou reputação. Os homens mais rijos na vaquejada em Trussu não puderam derrubá-lo, e quando treze peões resolveram picá-lo na véspera da chegada do valentão Josué Dias, Mocidade arrastou todos os treze pelas fogueiras do acampamento, atravessou os paus da cerca como quem anda pela chuva e sumiu na noite.

Conta meu compadre Zuca, de Canindé, que ouviu de um dos três matutos que ouviram do próprio Amâncio, que o vaqueiro nessa hora estalou a língua, enfiou na boca um capitão da paçoca de farinha de milho que estavam repartindo e confessou:

– A vida me secou os ossos, mas ainda sinto na boca os beijos da mocidade. Quero quebrar a maldita.

Foi assim que Amâncio de Icó se pôs à caça da Mocidade perdida, na figura do boi mais amolestado que se diz ter riscado o sertão do Ceará. Veio de vila em vila, perguntando nas feiras, parando cada destacamento, sondando os vaqueiros e ladeando as vaquejadas. Ouviu finalmente a notícia de um boi preto virado na peste que corria como assombração nos pés-de-serra do Araripe, e partiu para o Cariri, fazendo promessa de só entrar na cidade do Padre depois de derrubar o animal que tanto buscava.

Ouvindo que o touro vinha se derrubando de Nova Olinda na direção de Juazeiro, Amâncio acampou-se junto de um açude na entrada do Crato, na esperança de que o bicho fosse deste mundo e parasse para beber água. Numa espraida noite de lua crescente Amâncio ouviu o tropel desembestado do animal que se aproximava e mergulhou no açude, respirando por uma taquara.

Assim que o boi colocou o focinho na água o velho Amâncio perfurou-lhe as duas ventas com um gancho de ponta afiada, à moda de argola, usando também as pernas para escalar-lhe o pescoço. Possuído, o animal saiu em disparada, corcoveando e urrando com Amâncio pilotando-lhe os chifres. O gancho que o vaqueiro prendeu às fuças do boi estava preso a uma longa corrente; na corrida a corrente ia levantando um grande rastro de poeira, que na noite clara se via desde Juazeiro.

As mãos agarradas aos chifres do boi, Amâncio mostrou os dentes e sussurrou-lhe ao ouvido:

– Mocidade maldita, que me abandonou? Não te largo se tu não me devolver o vigor que tirou de mim. Estou velho mais sinto ainda os beijos que você me roubou. Devolve! Devolve tudo, féla de uma égua, se não te quebro!

Como o touro não dava qualquer sinal de cansaço, Amâncio Ferreira recolheu a corrente, girou-a no ar e arremessou-a na direção de um poste de luz pelo qual estavam passando. O vaqueiro pulou para longe e saiu rolando em segurança pelo chão, enquanto a corrente que ele havia atirado prendia-se no poste com três laçadas firmes.

Foi só quando a corrente esticou-se no máximo que o boi parou de correr. Não foi preciso dizer nada: o gancho abriu-lhe as ventas em duas, e o boi, desequilibrado, saiu capotando e quebrando todas as pernas pela noite velha do sertão. Quando parou foi com um baque surdo e pra não se mexer mais.

Morreu agarrado a um mandacaru, da mesma forma que nasceu.

Amâncio entrou em Juazeiro, de onde também não saiu mais. Casou-se com uma menina ainda muito moça, com quem teve três bacorinhos. Morreu velho, desdentado, rindo à toa e contando sempre a mesma história.

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25/7/2005

Atrás do tempo, perdido

Estocado às 06:42 em
por Daltro Persona

É mentira, brabo, que você entrevistou o Tempo enquanto ele permanecia deitado numa banheira branca. O Tempo não pára, e o único jeito de entrevistá-lo seria correndo ao lado dele, tomando cuidado para manter o passo sincronizado com o Tempo. O problema de correr lado a lado com o tempo é que você acaba perdendo de vista todo o tempo que passou. O problema de se concentrar no tempo que já passou é que você pode deixar de perceber o tanto que o tempo correu na sua frente. O problema de correr antes do tempo é que nada realmente acontece antes do tempo te alcançar.

Esse brabo é mesmo um perdido.


Veja também:
Primeira lei do tempo

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22/7/2005

Entrevista com o Tempo

Estocado às 06:10 em
por Paulo [brabo!]

Only Time, música da cantora irlandesa Enya com letra de Roma Ryan, pergunta incessantemente:


Quem pode dizer
Que rumo tomará a estrada
E para onde fluirá o dia?
Apenas o tempo.

E quem pode dizer
Se o seu amor se desenrolará
Como escolheu o seu coração?
Apenas o tempo.


Curioso para saber se o Tempo sabe mesmo tudo que lhe atribui a música e a sabedoria popular, resolvi entrevistá-lo.

Não foi fácil. O Tempo é naturalmente um sujeito muito ocupado e foi alegadamente muito difícil para a sua secretária encontrar um momento mais livre de sua agenda para responder as minhas perguntas. Fiquei esperando mais de meia hora na sala de espera antes que o Tempo pudesse me receber.

O Tempo é um homem com braços de homem adulto, pernas de criança e rosto de velho. Ele estava deitado até o queixo na água de uma banheira imaculadamente branca e perfeitamente circular. continue lendo>

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12/7/2005

Falsos detetores de mentiras e A Cidade dos Mentirosos

Estocado às 06:05 em
por Paulo [brabo!]

Li há duas semanas na Scientific American um artigo sobre a base evolucionária e científica da mentira (“Por que nós mentimos?”, pergunta o autor em determinado momento. “Porque funciona”, ele argumenta).

Os homens mentem tanto quanto as mulheres. Mas há uma diferença.

Dentre as pesquisas sobre o assunto realizadas recentemente, vale mencionar aquela que revelou uma surpresa: quantitativamente, os homens mentem tanto quanto as mulheres. Porém há uma diferença. Em geral os homens mentem para vender uma imagem mais positiva de si mesmos, enquanto as mulheres mentem para que a pessoa com quem estão falando sinta-se mais à vontade.

Outra pesquisa levantou um dado importante, ao mesmo tempo previsível e paradoxal: todos, homens e mulheres, tendem a falar mais a verdade quando estão presos a falsos detetores de mentiras – desde que, é claro, acreditem nos pesquisadores quando eles mentem dizendo que o falso detetor de mentiras usado na pesquisa é verdadeiro. Esse, lembrei, é um velho e intrigante método usado em interrogatórios: usar uma mentira para extrair uma verdade. A casa está cercada, o seu cúmplice já confessou, et cetera.




Na noite do dia em que li esse artigo sonhei que estava num ônibus de excursão numa cidade que parecia Curitiba, exatamente naquele laço de rua que circunda a Boca Maldita. Por alguma razão, comecei a conversar pela janela com as pessoas que passavam pela rua, enquanto o ônibus avançava devagar no trânsito. A todas fiz a mesma pergunta: “Por favor, que cidade é esta?”.

Cada pessoa, mesmo estando a menos de dois passos da outra, deu uma resposta diferente. “Francisco Beltrão”, disse um velho de chapéu. “Pato Branco”, disse uma mulher gorda com uma pele de raposa ao redor do pescoço. “Londres”, disse, impossivelmente, outro sujeito. E assim por diante. E, mesmo dentro da geografia impossível dos sonhos, eu sabia que estavam todos mentindo.

Cada pessoa a que fiz a pergunta deu uma resposta diferente.

O artigo da Scientific American lembra que a mentira é algo comum na criação: flores que lembram borboletas, lagartas que imitam frutas venenosas, pássaros e peixes que inflam o peito para parecerem maiores do que são ou, como encontrei outro dia numa das minhas caminhadas, um graveto que apenas a inspeção mais cuidadosa revelará ser um inseto.

A diferença no caso dos seres humanos (talvez também no de outros primatas) é que, além de sabermos que estamos mentindo, aprendemos a criar mentiras que se adaptem convenientemente a cada situação: maquiagens, implantes, ombreiras, ajustes contábeis e relatórios trimestrais.

Nosso problema é que nos tornamos, nós mesmos, sofisticados detetores de mentiras: analisando sinais muito sutis de linguagem do corpo, sabemos dizer de forma intuitiva, e com elevado grau de acerto, se a outra pessoa está mentindo. A teoria do artigo é que nossa capacidade de diagnosticar mentiras nos outros tornou-se um problema para nós porque, sabendo o quanto a mentira é fácil de detetar, ficamos muito nervosos no momento em que vamos nós mesmos mentir deliberadamente. Nosso nervosismo nos denuncia, e perdemos as vantagens técnicas que a mentira poderia nos oferecer.

Para contornar esse problema, nosso cérebro, muito matreiro, encontrou um atalho sofisticado: aprendemos a acreditar nas nossas mentiras, de modo a que quando formos dizê-las aos outros elas pareçam mais convincentes. O processo é inteiramente inconsciente, mas tornou-nos mentirosos tão sofisticados que acabamos contornando nossos próprios mecanismos de detecção.

Aprendemos a acreditar nas nossas mentiras.

Os mentirosos mais eficazes são os que mentem para si mesmos.

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2/7/2005

Enganismo

Estocado às 06:19 em
por Paulo [brabo!]

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Há dois ou três anos, numa única folha de papel, criei e eu mesmo assassinei o Manifesto Enganismo – um movimento literário poético baseado na aliteração de tom e de significado.

manifesto enganismo

enganando mando
menaneando unismo
meneando dando
envelheço moço
cabeceando cismo

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