8/11/2005

A sabedoria de João Grilo

Estocado às 05:41 em
por Paulo [brabo!]

O menino gente boa e desaforado da primeira parte de As Proezas de João Grilo acaba virando um cabra desaforado e gente boa.

Na segunda parte do folheto (escrita em setilhas, os versos de sete linhas que são minha forma favorita de poesia de cordel) Grilo é convidado por um sultão a passar por uma prova de inteligência, uma exigente bateria de perguntas e enigmas. João Grilo aceita, viaja ao reino do sultão e responde as perguntas do monarca sem dificuldade e com muito bom humor. Ao final da prova ele é nomeado, como José do Egito, conselheiro do rei.

E todas as questões do reino
era João que deslindava
qualquer pergunta difícil
ele sempre decifrava
julgamentos delicados
problemas muito enrascados
era João que desmanchava.

Segue meu caso favorito, seu senso de justiça quase shakesperiano:

Certa vez chegou na corte
um mendigo esfarrapado
com uma mochila nas costas
dois guardas de cada lado
seu rosto cheio de mágoa
os olhos vertendo água
fazia pena o coitado. continue lendo>

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19/10/2005

Deslegislação

Estocado às 06:38 em
por Paulo [brabo!]

Logo chegará o domingo, e com ele o referendo que deve trazer um ponto final – ? – às lodosas discussões sobre a lei que proíbe o comércio e o porte de armas de fogo.

O resultado não me interessa porque não espero dele nada de concreto, mas os debates interessam-me menos ainda. Trata-se de questão circular, na qual a estratégia de ambos os lados está em tentar suplantar o oponente em virtude. Os partidários da Lei Seca pregam com olhos úmidos um mundo sem violência e sem ameaças à integridade da vida, enquanto os contrários à Proibição levantam-se com voz embargada para defender as famílias que ficarão à mercê da descapitalização caso se permita que a lei passe. Diante de tanto heroísmo, fica difícil decidir quem tem o coração mais puro.

De minha parte, concluo que a única coisa que devo defender com mais ardor do que o pacifismo é a anarquia, entendida como a não-intervenção do estado nos negócios da gente comum. A separação entre Igreja e Estado deve poder incluir os que fazem da violência a sua religião. É por isso que, ao contrário dos propagandistas, é por questão de ideologia e não de altruísmo que estou decidido a dizer não à referida Lei.

Quem dera os referendos fossem mais freqüentes e/ou retroativos, e eu diria não a todas.

Leia também:
Campanha de Desopinionização
Campanha de Desautomobilização

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18/10/2005

As proezas de João Grilo

Estocado às 06:30 em
por Paulo [brabo!]

Conforme lembrou o pau-de-arara na sua discussão com o carioca,

O Brasil é todo meu
o homem precisa andar
para poder desfrutar
do país onde nasceu.

O Brasil é um vasto enigma, um labirinto de proporções continentais, e é preciso de várias indicações (em geral muito distantes umas das outras) para se começar a deslindar esse fio. Uma das surpresas da minha viagem ao nordeste foi encontrar sem estar procurando algumas chaves que me ajudaram a compreender um tiquinho a mais o Brasil – e portanto, compreender mais a mim mesmo.

Ainda no Rio de Janeiro, depois de assistirmos pela primeira vez aO Auto da Compadecida, perguntou-me o Julian se o personagem de João Grilo era tradicional no nosso folclore ou havia sido criado para a peça [de teatro que gerou o filme]. Muito ignorante, afirmei que nunca tinha ouvido falar do João Grilo antes do Auto e disse que achava que Ariano Suassuna o tinha tirado da própria cachola com base no perfil do nordestino ladino (que também aparece na discussão com o carioca).

Logo que cheguei a Fortaleza o Engenhoso Fidalgo Dom Arievaldo Viana, ele mesmo um dos mais ladinos e talentosos cordelistas da nova geração, corrigiu na lata a minha impressão. Explicou-me o Ari (naquele restaurante na beira da praia que para seu desespero cobrava quatro reais e oitenta centavos a garrafa de cerveja) que João Grilo é figura tradicionalíssima da literatura de cordel e mais ainda – que veio importado até da Europa.

A diferença entre o João Grilo do nordeste e o das Europas, disse-me Ari e confirmam todas as fontes, é que na travessia do Atlântico ele espertou. Segundo o pesquisador Ribamar Lopes, o João Grilo que aparece nos contos populares portugueses “em nada se parece com o nosso endiabrado, inteligente e ardiloso João Grilo nordestino em que o transformamos. O personagem de um dos mais conhecidos contos da tradição oral portuguesa é um tolo, um falso adivinhão favorecido pelas circunstâncias.” O João Grilo português é um simplório que leva a melhor sem qualquer premeditação e por pura sorte – um antepassado transatlântico de Forrest Gump.

O João Grilo brasileiro, mais chegado à malandra linhagem de Pedro Malazarte, é um cabra pobre que aprende a usar artimanhas para vencer os poderosos e corrigir injustiças. É, sem tirar nem pôr, o personagem feio, “amarelo”, desnutrido, franzinho e atinado que aparece em O Auto da Compadecida. Seu primeiro grande celebrador foi o poeta João Ferreira de Lima, que publicou na década de 1930 um folheto de oito páginas chamado As palhaçadas de João Grilo, mas tarde ampliado por outro autor e publicado sob o título Proezas de João Grilo.

O João Grilo de João Ferreira de Lima é ainda um moleque mirrado e malcriado; é apenas na segunda porção das Proezas de João Grilo, redigida na década de 1940 por Delarme Monteiro (ou talvez João Martins de Athayde) e acrescentada ao texto de João de Lima, que toma corpo o Grilo sábio e justiceiro que aparece no Auto.

Da primeira fase de João Grilo, a de moleque, recitou-me Arievaldo Viana, na mesma noite e antes de partirmos para um baião de dois e carne de sol no Dragão do Mar, os seguintes e impagáveis versos:

Um dia a mãe de João Grilo
Foi buscar água à tardinha
Deixou João Grilo em casa
E quando deu fé, lá vinha
Um padre pedindo água
Nessa ocasião não tinha

João disse: só tem garapa
Disse o padre: d’onde é?
João Grilo lhe respondeu:
É do engenho Catolé
Disse o padre: pois eu quero
João levou uma coité1.

O padre bebeu e disse:
Oh! Que garapa boa!
João Grilo disse: quer mais?
O padre disse: e a patroa
Não brigará com você?
João disse: tem uma canoa

João trouxe uma coité
Naquele mesmo momento
Disse ao padre: bebe mais
Não precisa acanhamento
Na garapa tinha um rato
Estava podre e fedorento

O padre disse: menino
Tenha mais educação
E porque não me disseste?
Oh! Natureza do cão!
Pegou a dita coité
Arrebentou-a no chão.

João Grilo disse: danou-se!
Misericórdia, São Bento!
Com isso mamãe se dana
Me pague mil e quinhentos
Esse coité, seu vigário
É de mamãe mijar dentro.

Clique para ampliar
Digilogravuras deste que vos fala

1 Cuia feita da casca da fruta coité.

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16/9/2005

Cadeira-do-dragão

Estocado às 06:23 em
por Paulo [brabo!]

Uma das sete ilustrações que fiz para uma página dupla da edição de outubro da revista Mundo Estranho, da Editora Abril. A matéria é sobre as formas mais comuns de tortura utilizadas durante a ditadura brasileira – e pediram-me que as cenas seguissem a linha sombria desta ilustração.

Se há governo, sou contra. Clique para ampliar.

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7/9/2005

Independência ou morte…

Estocado às 08:20 em
por Paulo [brabo!]

...mas não para as mesmas pessoas ao mesmo tempo.

O Brasil é o oitavo país em desigualdade social, na frente apenas da latina-americana Guatemala, e dos africanos Suazilândia, República Centro-Africana, Serra Leoa, Botsuana, Lesoto e Namíbia.

De acordo com o documento, no Brasil 46,9% da renda nacional concentram-se nas mãos dos 10% mais ricos. Já os 10% mais pobres ficam com apenas 0,7% da renda.

Aqui há distribuição de tarefas: uns ficam com a independência, outros com a morte.




Brasil é oitavo país em desiguladade social, diz pesquisa
da Folha Online, em Brasília e SP

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4/9/2005

Dicionário do Pae (atualizado)

Estocado às 06:09 em
por Paulo [brabo!]

Outro dia a Ana Flávia (Frááá) comentou que as histórias do meu pai dariam um livro: ‘Histórias do Pae”. Pois há antes outro livro importante a se escrever sobre ele, o Dicionário do Pae. Meu pai, como vivo dizendo, tem uma queda por usar expressões pitorescas e fora de moda, ou que lembrem um passado distante ou até hipotético.

A
almoçar. comer ou beber com avidez. A abelha está almoçando a água
ântigos tempos. tempos antigos
arreia. areia

B
baranco. barranco
Bela. Vocativo para referir-se à esposa, Edith. Vamos dormir, Bela?
bôio. bom (carinhoso). Feminino bôia. Menina bôia
brábico. brabo (carinhoso). O Paulo está brábico
bragado. malhado, rajado. Tínhamos um boi bragado

C
cachopa. cabelo armado e/ou desgrenhado, pandorga
campear. procurar. O guapeca está campeando comida
capoeira. hipérbole: diz-se da comida temperada com ervas. Eu não vou comer essa capoeira (referindo-se, por exemplo, às folhas de manjericão que estão temperando a carne moída)
Cica. nome genérico usado para qualquer guapeca.
colicar. mexer o café na xícara com a colher.
conjuminar. combinar. Feijão e ovo frito não conjuminam
criança rebelde. pessoa que recorre a argumento ou a posicionamento infantil. Você está sendo criança rebelde

F
fazer lhú-lho lhú-lho. nanar, dormir (para crianças)
fazer pântch-pântch. tomar banho (para crianças)
fazer potôia. potoiar, cair (para crianças)
fêco. feio (carinhoso). Menino fêco

G
gambiarra. conserto precário
guapeca. vira-latas
guarda-deitado. lombada, quebra-molas
guerêro. guerreiro (usado na expressão “a volta do guerêro”)

I
inhóspito. inóspito
inticar. provocar. Pare de inticar a sua irmã!

J
Jeco. nome genérico usado para qualquer guapeca

L
largar nóde. manchar (a roupa). Cuidado que essa fruta larga nóde
lhú-lho lhú-lho. sono de criança
loiça. louça. O Paulo está lavando loiça

M
mareado. enjoado. Não olhe para os lados [no carro] para não ficar mareado
matioso. manhoso. O nenen está matioso

N
nóde. nódoa
novo. descansado. Estou novo (depois de acordar)

O
orifício buracoso. buraco

P
pacalho. traseiro, bunda
pae. pai
paie. pai
paié. pai
palhoso. de consistência ruim (esp. para bolos)
pandorga. cabelo armado e/ou desgrenhado, cachopa
pântch-pântch. banho (para crianças)
peguigo. pênis (para crianças)
pensão. apreensão. Fulano está com pensão (Fulano está apreensivo)
pon. pão
potoiar. cair (para crianças)

R
rastaqüera. de qualidade inferior. Uma farinha rastaqüera
ridica. pessoa sumita, sovina
ridicar. sumitar, ser sovina
roça. roça

S
sanananga. instável, capenga, perigando cair ou desmontar. Cadeira sanananga
sóli. sol
servergonha. sem-vergonha
sumita. sovina, pessoa que sumita
sumitar. ridicar, ser sovina

T
tuchado. cheio, repleto, coalhado
trempe. estrutura precária

V
vizinho. vocativo genérico usado para dirigir-se a um estranho (esp. para pedir informações). Vizinho, sabe dizer onde fica a saída para Rio do Sul?

Expressões

A Inês é morta. Não tem nem o que discutir, assunto encerrado
Com o andar da carruagem as melancias se ajeitam. Com o tempo isso se resolve
É a volta do guerêro. Cheguei do trabalho
Dava para cortar com uma faca. O nevoeiro estava muito espesso.
É dois trabalhos: ficar e desficar. Não adianta nada essa sua atitude. Ah, ficou brabo? É dois trabalhos: ficar e desficar
Entupiu o ralo do banheiro. Eu estava imundo
Está (é) de engolir a língua junto. A comida está (é) gostosa
Está (tem) gosto de Santa Catarina. A comida está (é) gostosa
Estava dentro de um copo de leite. O nevoeiro estava muito espesso.
Mais quebrado do que arroz de terceira. Muito cansado
Não dá para ouvir o barulho da comida. Não dá para sentir o gosto, especialmente da carne (esp. se há tempero além de sal e cebola, ou se há molho de tomate ou pimentão, mesmo em quantidades infinitesimais)
Não se preocupe com a ponte antes de chegar perto dela. Ainda não sei exatamente como vamos fazer
O melhor foi a Coca-Cola. Não gostei de nada em particular na refeição
Pimentão é bom para a memória. Pimentão faz arrotar muito tempo depois que você comeu. Não gosto de pimentão
Tem certeza que você não engoliu distraidamente? Não sei onde coloquei
Tem gosto de corrimão de pensão. Tem sabor desagradável
Tem gosto de guarda-chuva de polaco. Tem sabor desagradável
Você que pegou. Confesse. Não sei onde coloquei

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19/8/2005

Padre Nosso do Imposto

Estocado às 06:34 em
por Paulo [brabo!]

Nunca se viu tanto imposto
Num país como esse nosso
Cobra-se até de quem reza
Padre Nosso.

Nos falta calçado e roupa
Quem compra mais um chapéu?
Acode-nos, pai da pobreza
Que estás no céu.

Olhe que o pobre matuto
Que vê o milho encostado,
Não pode guardar nem um dia
Santificado.

Carne fresca e toucinho
O pobre matuto não come,
Ainda que, o que ele implore
Seja o vosso nome.

Meu Deus! Temos esperança
Só no socorro de vós,
Fazei que um bom inverno
Venha a nós.

De rato, lagarta e formiga
Vos pedimos, defendei-nos
Imploramos todos os dias
Ao vosso reino.

Livrai-nos que contra nós
Caia a ira do prefeito
E o mercado da cidade
Seja feito.

Fazei que caia o imposto
Da municipalidade
Mas, queira Deus eles façam
A vossa vontade.

O estado nos oprime,
O município faz guerra,
Nunca se viu tanto imposto
Assim na terra.

Queixa-se o povo em geral
Que vive como tetéu
E o governo vive aqui
Como no céu…
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