Quando meu pai levou-nos para ver Guerra Nas Estrelas no shopping center Com-Tour em Londrina, eu tinha dez anos e expectativa nenhuma. Não era a primeira vez que eu ia ao cinema, mas era certamente a primeira vez que ia a um cinema num shopping – sem contar que era também meu primeiro shopping.
Se não me engano aquela tarde foi também a primeira vez que bebi refrigerante em lata – meu pai, absolutamente decidido a tornar a ocasião memorável, comprou um perfumadíssimo guaraná Skol só pra mim. Éramos eu e o guaraná de tal natureza que a lata me parecia inesgotável, no bom sentido. Isso foi talvez antes do filme.
O guaraná Skol e o shopping Com-Tour passaram, mas o filme permaneceu comigo.
Há duas semanas assisti o Episódio III. Em 1977 eu não tinha expectativa alguma.
George Lucas pode não achar-se responsável pelas minhas expectativas, mas ele é. Antes de ver o primeiro Guerra Nas Estrelas eu não havia assistido Matrix nem E.T. nem Contatos Imediatos nem V- A Batalha Final nem O Senhor Dos Anéis – porém também é fato que nenhum desses teria vindo à luz sem o assombroso empurrão que foi Guerras Nas Estrelas. Se minhas expectativas subiram assustadoramente nesses trinta anos a culpa é de Lucas: foi ele que começou.
Ah, o Episódio III. Dramaticamente falando, (quase) todas as seqüências – os acontecimentos brutos – funcionam para mim. Todas se encaixam, sinto, na narrativa principal. São bem imaginadas. São, num certo sentido, muito satisfatórias.
Não quer dizer que não poderiam ter sido melhor dirigidas. E atuadas. E escritas.
As atuações tem um jeito de atuação de cinema mudo – baseadas em amplas gesticulações fora de moda e olhares sempre significativos, muito maquiados e perversos. Não acho isso ruim a princípio; pelo menos nos filmes mudos você não é obrigado a de fato ouvir diálogos fracos sendo falados em voz alta. Faz diferença. Gostaria especialmente de ter sido poupado, na primeira parte do filme, das inúmeras piadinhas curtas de filme de ação que fazem “Asta la vista, baby” parecerem Shakespeare.
Também não gosto quando personagens que conheço agem de forma diferente da que aprendi a esperar deles. Todos sabíamos que Anakin era um pulha, mas mais é irritante ver gente que já foi inteligente, perspicaz e astuta agindo como patetas incapazes de ver o que está acontecendo literalmente diante dos seus olhos, nos olhos de Anakin – e estou falando, é claro, de Padme Amidala e Obi-Wan Kenobi.
Cara, o amor é cego. Agora eu sei.
De qualquer modo, a coisa toda funciona de um modo meio atrapalhado. Nossas expectativas trabalham contra o filme, mas nossas memórias trabalham a favor, especialmente quando as coisas começam a se encaixar. Gosto especialmente do toque das últimas palavras de Padme – a palavra que ela não chega a dizer mas que está no título do Episódio IV.
Não devo, porém, me estender no Lado Negro da crítica.
Medo, ira e frustração eles são.

PS para Bart:
Burt, você disse que eu não sentiria falta de nada. Você estava errado. Senti falta de você e da sua paixão pelas coisas, de quando saíamos à uma da tarde do trabalho para assistir uma estréia e de quando ouvíamos a mesma música do Coolio a manhã inteira.
Este é o velho sáite da Bacia das Almas, que não será mais
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