15/7/2005

Caco Postal

Estocado às 06:31 em
por Paulo [brabo!]

Houve um tempo em que ninguém andava na Rua XV, em que as pessoas mandavam cartões postais umas para as outras e em que todos os toldos das barraquinhas e bancas do centro de Curitiba eram de acrílico roxo. Quem mandou-me este, para meu endereço de Bauru, foi Carlos, o Bondoso (Caco, para os sobrinhos). O ano é 1979, como comprova este detalhe.

O que não mudou é que as mensagens do Caco continuam brevíssimas.

Carlos, como creio que nunca respondi às perguntas que você faz neste cartão, nunca é tarde. Quando venho para Curitiba? Estou aqui desde 1987. Devo ter crescido bastante, né? Amigo, você não tem noção.

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7/7/2005

Casa Edith

Estocado às 06:29 em
por Paulo [brabo!]

A Alice contou-me ontem de uma cidadezinha do interior dos Estados Unidos que ela foi visitar. Melhor deixar ela mesma contar a história, mas nossa conversa me fez pensar na Casa Edith, na Praça Generoso Marques em Curitiba – construída em 1879 e onde comprei há vinte anos meu chapéu de Indiana Jones.

Sempre que passo pela praça surpreendo-me que a Casa Edith ainda esteja lá, suspensa no tempo, mais ou menos como devia ser na década de 1940 e certamente muito antes. A loja é um estranho sobrevivente, um dos últimos remanescentes do tempo da Tecidos Urca, na Praça Tiradentes, onde minha mãe (que também se chama Edith) trabalhava quando mocinha. Como a loja clássica das Papelarias Requião, que fechou há algum tempo depois de 80 anos, sei que a Casa Edith (que vende ainda hoje chapéus e gravatas-borboleta que ninguém usa mais) não tem como durar muito tempo numa era implacável como a nossa.

Um dia vou passar por ali e não vou encontrar mais aquela entradinha perfumada com piso de madeira para olhar os arranjos ordeiros na vitrine. Não vou poder mais espiar para dentro e ver as caixas empilhadas umas sobre as outras, os balcões de madeira e vidro, os chapéus presos no teto, nas paredes e na parte inferior da escada que sobe para o segundo andar. Não vou mais poder olhar para o passado nos olhos.

Como tirei essas fotos no ano passado e raramente passo por ali, talvez a Casa Edith nem esteja mais lá.

Ah, que mundo.

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7/6/2005

Episódio III

Estocado às 06:10 em
por Paulo [brabo!]

Quando meu pai levou-nos para ver Guerra Nas Estrelas no shopping center Com-Tour em Londrina, eu tinha dez anos e expectativa nenhuma. Não era a primeira vez que eu ia ao cinema, mas era certamente a primeira vez que ia a um cinema num shopping – sem contar que era também meu primeiro shopping.

Se não me engano aquela tarde foi também a primeira vez que bebi refrigerante em lata – meu pai, absolutamente decidido a tornar a ocasião memorável, comprou um perfumadíssimo guaraná Skol só pra mim. Éramos eu e o guaraná de tal natureza que a lata me parecia inesgotável, no bom sentido. Isso foi talvez antes do filme.

O guaraná Skol e o shopping Com-Tour passaram, mas o filme permaneceu comigo.

Há duas semanas assisti o Episódio III. Em 1977 eu não tinha expectativa alguma.

George Lucas pode não achar-se responsável pelas minhas expectativas, mas ele é. Antes de ver o primeiro Guerra Nas Estrelas eu não havia assistido Matrix nem E.T. nem Contatos Imediatos nem V- A Batalha Final nem O Senhor Dos Anéis – porém também é fato que nenhum desses teria vindo à luz sem o assombroso empurrão que foi Guerras Nas Estrelas. Se minhas expectativas subiram assustadoramente nesses trinta anos a culpa é de Lucas: foi ele que começou.

Ah, o Episódio III. Dramaticamente falando, (quase) todas as seqüências – os acontecimentos brutos – funcionam para mim. Todas se encaixam, sinto, na narrativa principal. São bem imaginadas. São, num certo sentido, muito satisfatórias.

Não quer dizer que não poderiam ter sido melhor dirigidas. E atuadas. E escritas.

As atuações tem um jeito de atuação de cinema mudo – baseadas em amplas gesticulações fora de moda e olhares sempre significativos, muito maquiados e perversos. Não acho isso ruim a princípio; pelo menos nos filmes mudos você não é obrigado a de fato ouvir diálogos fracos sendo falados em voz alta. Faz diferença. Gostaria especialmente de ter sido poupado, na primeira parte do filme, das inúmeras piadinhas curtas de filme de ação que fazem “Asta la vista, baby” parecerem Shakespeare.

Também não gosto quando personagens que conheço agem de forma diferente da que aprendi a esperar deles. Todos sabíamos que Anakin era um pulha, mas mais é irritante ver gente que já foi inteligente, perspicaz e astuta agindo como patetas incapazes de ver o que está acontecendo literalmente diante dos seus olhos, nos olhos de Anakin – e estou falando, é claro, de Padme Amidala e Obi-Wan Kenobi.

Cara, o amor é cego. Agora eu sei.

De qualquer modo, a coisa toda funciona de um modo meio atrapalhado. Nossas expectativas trabalham contra o filme, mas nossas memórias trabalham a favor, especialmente quando as coisas começam a se encaixar. Gosto especialmente do toque das últimas palavras de Padme – a palavra que ela não chega a dizer mas que está no título do Episódio IV.

Não devo, porém, me estender no Lado Negro da crítica.

Medo, ira e frustração eles são.

PS para Bart:
Burt, você disse que eu não sentiria falta de nada. Você estava errado. Senti falta de você e da sua paixão pelas coisas, de quando saíamos à uma da tarde do trabalho para assistir uma estréia e de quando ouvíamos a mesma música do Coolio a manhã inteira.

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6/5/2005

Saludos Amigos

Estocado às 06:24 em
por Paulo [brabo!]

O Pato Donald visita Zé Carioca no Brasil disneydealizado de 1942. O malandro, você deve lembrar, tentou até ensinar o pato a sambar. Quem canta é Aloysio de Oliveira com o Bando da Lua (famoso por acompanhar Carmen Miranda). Veja aqui uma versão maior da capa do disco.

Saludos Amigos – todas as faixas em mp3

ADVERTÊNCIA: Brasileiras mesmo apenas a faixa 3, Aquarela do Brasil e a 5, Tico-Tico no fubá. Essa última está imperdível.

Da coleção de LPs infantis disponíveis em www.kiddierecords.com.

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21/3/2005

Reforma

Estocado às 06:14 em
por Paulo [brabo!]

Se os anos 80 são a minha época, há dois lugares aos quais sempre volto – lugares que freqüentam os meus sonhos e que freqüento nos meus sonhos: Urubici e o velho edifício da Igreja Batista do Cajuru.

São destinos da minha infância, os dois, que vejo transmutados mas plenamente reconhecíveis em sonho por incontáveis noites na minha história. Meus sonhos com Urubici e com o prédio do Cajuru são sonhos de atmosfera, nos quais pouco efetivamente acontece, mais claramente caracterizados pela embriagante sensação de se estar num lugar acolhedor e assustadoramente rico em possibilidades.

Fiquei sabendo que a reforma no edifício do Cajuru está quase concluída mas não tive ainda coragem de conferí-la, especialmente por saber que as mudanças se concentraram na parte de trás e nos andares superiores, precisamente a região do prédio onde concentram-se os meus sonhos.

Embora pense que reformas e alterações institucionais sejam talvez inevitáveis, essa em particular me incomoda, emocionalmente falando. O prédio do Cajuru contém grande parte do que efetivamente sou e daquilo com que sonho e do que me lembro. Sinto como se meu patrimônio de nostalgia estivesse sendo devassado; isso acontece com esperada freqüência, mas raramente com um alvo que me é tão particular.

O Cajuru é em grande parte a minha casa, minha arquétipica casa, e o único destino digno para uma casa, fora a preservação, é a decrepitude e o abandono. Qualquer reforma que não vise a preservação deixa uma casa assombrada com o presente, o que é de certa forma o destino mais assustador de todos.

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27/2/2005

Especially for you

Estocado às 06:14 em
por Paulo [brabo!]

Um dia desses re-ouvi Especially for you (1988), um duetinho romântico cantado por Jason Donovan (quem quer que seja o sujeito) e uma ainda jovenzinha Kylie Minogue, e fui varrido – arrebatado, sugado, abduzido – de volta para os anos 80. Fui forçado a admitir que para mim Aqueles Dias são a irrecuperável, açucarada e idealista década de 1980.

Meu amigo Ivan ponderou certa vez que no paraíso encontraremos todas as melhores versões de nós mesmos, em todas as idades. Haverá ali diversos eus, por assim dizer: o bebê, a criança, o adolescente, o adulto e o idoso – convivendo juntos, criativamente e independentemente, e finalmente em paz. O céu deverá produzir então essa definitiva terapia, em que todas as nossas idades serão redimidas.

Na inesgotável realidade geográfica e histórica do paraíso, depois que eu e todos os meus eus tivermos devassado todas as eras e todos os possíveis destinos, depois de me demorar na década 1940 e nas cidades perdidas da Índia e nos penhascos do Nepal, depois que tivermos derramado por incontáveis eras as primeiras gotas de gratidão aos pés do Admirável, sei que voltarei sempre a Aqueles Dias de 1980.

É sempre ali que estará minha casa, por assim dizer. Tudo que veio antes será para sempre passado, tudo que veio depois apenas futuro. Minha própria plenitude dos tempos, por assim dizer.

I wanna let you know what I was going through
All the time we were apart I thought of you
You were in my heart
My love never changed
I still feel the same
I wanna tell you I was feeling that way too
And if dreams were wings, you know
I would have flown to you
To be where you are
No matter how far
And now that I’m next to you
No more dreaming about tomorrow
Forget the loneliness and the sorrow
I’ve got to say
It’s all because of you
And now we’re back together, together
I wanna show you my heart is oh so true
And all the love I have is
Especially for you

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24/2/2005

O Mundo Perdido, última parte

Estocado às 06:27 em
por Paulo [brabo!]
Conclusão das partes um e dois.

A eternidade é uma plantações de arroz, mas nem mesmo o eterno precisa manter necessariamente a mesma feição. As duas fotos antes das imagens da estrada, no pé da página, mostram o mesmo campo que no dia anterior era de um verde cintilante e impossível.

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