19/10/2005

Deslegislação

Estocado às 06:38 em
por Paulo [brabo!]

Logo chegará o domingo, e com ele o referendo que deve trazer um ponto final – ? – às lodosas discussões sobre a lei que proíbe o comércio e o porte de armas de fogo.

O resultado não me interessa porque não espero dele nada de concreto, mas os debates interessam-me menos ainda. Trata-se de questão circular, na qual a estratégia de ambos os lados está em tentar suplantar o oponente em virtude. Os partidários da Lei Seca pregam com olhos úmidos um mundo sem violência e sem ameaças à integridade da vida, enquanto os contrários à Proibição levantam-se com voz embargada para defender as famílias que ficarão à mercê da descapitalização caso se permita que a lei passe. Diante de tanto heroísmo, fica difícil decidir quem tem o coração mais puro.

De minha parte, concluo que a única coisa que devo defender com mais ardor do que o pacifismo é a anarquia, entendida como a não-intervenção do estado nos negócios da gente comum. A separação entre Igreja e Estado deve poder incluir os que fazem da violência a sua religião. É por isso que, ao contrário dos propagandistas, é por questão de ideologia e não de altruísmo que estou decidido a dizer não à referida Lei.

Quem dera os referendos fossem mais freqüentes e/ou retroativos, e eu diria não a todas.

Leia também:
Campanha de Desopinionização
Campanha de Desautomobilização

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7/9/2005

Independência ou morte…

Estocado às 08:20 em
por Paulo [brabo!]

...mas não para as mesmas pessoas ao mesmo tempo.

O Brasil é o oitavo país em desigualdade social, na frente apenas da latina-americana Guatemala, e dos africanos Suazilândia, República Centro-Africana, Serra Leoa, Botsuana, Lesoto e Namíbia.

De acordo com o documento, no Brasil 46,9% da renda nacional concentram-se nas mãos dos 10% mais ricos. Já os 10% mais pobres ficam com apenas 0,7% da renda.

Aqui há distribuição de tarefas: uns ficam com a independência, outros com a morte.




Brasil é oitavo país em desiguladade social, diz pesquisa
da Folha Online, em Brasília e SP

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19/8/2005

Padre Nosso do Imposto

Estocado às 06:34 em
por Paulo [brabo!]

Nunca se viu tanto imposto
Num país como esse nosso
Cobra-se até de quem reza
Padre Nosso.

Nos falta calçado e roupa
Quem compra mais um chapéu?
Acode-nos, pai da pobreza
Que estás no céu.

Olhe que o pobre matuto
Que vê o milho encostado,
Não pode guardar nem um dia
Santificado.

Carne fresca e toucinho
O pobre matuto não come,
Ainda que, o que ele implore
Seja o vosso nome.

Meu Deus! Temos esperança
Só no socorro de vós,
Fazei que um bom inverno
Venha a nós.

De rato, lagarta e formiga
Vos pedimos, defendei-nos
Imploramos todos os dias
Ao vosso reino.

Livrai-nos que contra nós
Caia a ira do prefeito
E o mercado da cidade
Seja feito.

Fazei que caia o imposto
Da municipalidade
Mas, queira Deus eles façam
A vossa vontade.

O estado nos oprime,
O município faz guerra,
Nunca se viu tanto imposto
Assim na terra.

Queixa-se o povo em geral
Que vive como tetéu
E o governo vive aqui
Como no céu…
continue lendo>

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15/8/2005

Campanha de Desopinionização

Estocado às 06:13 em
por Paulo [brabo!]

Numa verdadeira democracia o único princípio mais fundamental que a liberdade de expressão deve ser, naturalmente, a liberdade de pensamento. O direito da outra pessoa se expressar termina onde começa o seu direito de pensar por si mesmo.

Se você refletir bem, verá que quando expressa abertamente a sua opinião você está tacitamente condenando a opinião da pessoa que discorda de você: está, na melhor das hipóteses, causando constrangimento; na pior, está coagindo um agente livre a alterar suas próprias crenças e valores em favor de uma opinião alheia – e o que é pior: a sua.

Nada é mais tendencioso do que uma opinião. O paradoxo da democracia, portanto, é que todas as vezes que emite uma opinião você está ferindo a liberdade de pensamento de outra pessoa.

Todas as vezes que emite uma opinião você está ferindo a liberdade de pensamento de outra pessoa.

A fim de resolver esse problema, em países mais civilizados que o nosso a liberdade de expressão já foi totalmente suprimida em favor da liberdade de pensamento. Para que todos sejam livres para pensarem como quiserem, ninguém deve ter a liberdade de expor a sua opinião para quem quer que seja.

Visto que nada é mais perigoso do que uma opinião errada, e nada é mais prejudicial à inalienável liberdade de pensamento do ser humano que ser submetido a uma opinião contrária à sua, cabe ao governo livrar os cidadãos desse constrangimento. Tendo em vista a sereníssima e recente legislação que preconiza o desarmamento da população civil, considero pertinente dar-se início a uma campanha paralela de desopinionização da sociedade brasileira.

Creio que o governo deveria, antes de se importar com ninharias como as armas de fogo, dar prioridade a impedir a circulação desenfreada de opiniões, argumentos e idéias que vemos hoje. A nova lei deveria proibir o porte de opiniões por civis, com exceção para casos onde há ameaça à vida da pessoa. Antes do desarmamento deveria vir a desopinionização.

Se tudo acontecer como prevejo, somente poderão andar munidos de opiniões os responsáveis pela garantia da segurança pública, integrantes das Forças Armadas, policiais, agentes de inteligência e agentes de segurança privada. E civis com porte concedido pela Polícia Federal.

Nada é mais tendencioso do que uma opinião.

Quem for pego empunhando sua opinião sem o devido porte será preso. O porte ilegal será crime inafiançável. Só pagará fiança quem for pego expressando opinião de uso permitido e estando registrada em seu nome. Se o porte ilegal for de opinião de uso restrito, além de ser crime inafiançável, o réu não terá direito à liberdade provisória. O mesmo tratamento terá quem praticar a propagação ilegal de idéias e o tráfico internacional de opiniões.

As opiniões apreendidas ou entregues pela população serão destruídas pelo Comando do Exército.

Das opiniões que já expressei livremente, esta deverá portanto ser a última. Apenas a sua liberdade de pensamento vale que eu cale a boca.

Leia também:
NOTA DOS EDITORES

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10/8/2005

Vítimas do século XX

Estocado às 06:13 em
por Paulo [brabo!]

O pensador Ivan Illich entende, e concordo em grande parte com ele, que somos todos de alguma forma vítimas do século XX.

O último século (para evitar dizer “século passado”, sendo que é ainda o meu) começou de forma promissora em muitos sentidos. As promessas da produção em massa, da educação, da medicina, da revolução nos transportes e na comunicação – tudo prometia um mundo novo que de fato ergueu-se das cinzas das duas guerras. As três ou quatro primeiras décadas do século XX representaram o que Illich chama de um primeiro grande “divisor de águas” para praticamente todas as áreas de interesse e de conhecimento da humanidade.

O homem comum viu-se de repente (e de modo geral) mais saudável, mais rico, mais informado, mais bem alimentado – talvez até mesmo mais feliz.

Quando o transporte passou pelo segundo divisor de águas os veículos haviam criado mais distâncias do que haviam ajudado a cobrir.

Então, em determinada altura, algo aconteceu. Como num episódio barato de Além da Imaginação, as promessas começaram a voltar-se contra si mesmas. Imperceptivelmente, defende Illich, as soluções começaram a criar pelo menos tantos problemas quanto haviam reparado. O problema é que estávamos já tão habituados às soluções que tornamo-nos cegos ao fato de que havíamos sido aprisionados por elas.

Este momento foi o do segundo grande divisor de águas para todas as áreas de conhecimento. Illich acredita que o problema afetou (e afeta) absolutamente tudo que nos rodeia. Tudo atingiu o seu nível de incompetência. A medicina, a educação, a produção em massa – todos esses acabaram gerando os exatos problemas que haviam se proposto a solucionar.

A teoria de Illich fica mais fácil de entender quando pensamos no problema (e na pretensa solução) do transporte urbano. Ele diz:

No caso do transporte, foi necessário quase um século para passarmos de uma era servida por veículos motorizados para uma era em que a sociedade viu-se virtualmente reduzida à escravidão ao automóvel. Durante a Guerra Civil americana os veículos movidos a vapor tornaram-se efetivos. A nova economia do transporte possibilitou a muita gente viajar por trilhos à velocidade de uma carruagem real, e fazê-lo com um conforto com o qual reis não ousariam sonhar. Gradualmente a locomoção desejável passou a ser associada e finalmente identificada com veículos de alta velocidade. Mas quando o transporte passou pelo segundo divisor de águas os veículos haviam criado mais distâncias do que haviam ajudado a cobrir; mais tempo era usado pela sociedade como um todo no tráfego do que tempo era realmente “economizado”.
(Illich, Ferramentas de Convivência).

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2/8/2005

Campanha de Desautomobilização

Estocado às 06:05 em
por Paulo [brabo!]

Creio que foi o Ivan quem me abriu os olhos sobre o assunto quando disse que carteira de motorista equivale a porte de arma.

E faz todo sentido: em 2003 a Organização Mundial da Saúde divulgou que o trânsito mata quatro vezes mais pessoas do que as guerras. Na verdade, nada mata mais no mundo do que as injúrias causadas por acidentes de trânsito (em segundo lugar no ranking das causas de morte fica, significativamente, o suicídio; em quinto os envenenamentos, as guerras em sexto).

Antes do desarmamento deveria vir a desautomobilização.

Embora o número de veículos automotores seja maior nos países desenvolvidos, quase 90% das mortes causadas por acidentes automobilísticos acontecem nos países em desenvolvimento.

Tendo em vista a sereníssima e recente legislação que preconiza o desarmamento da população civil, considero pertinente dar-se início a uma campanha paralela de desautomobilização da sociedade brasileira.

Creio que o governo deveria, antes de se importar com ninharias como as armas de fogo, dar prioridade a recolher de forma imediata e compulsória todos os carros, motocicletas, caminhões e demais veículos automotores. A nova lei deveria proibir o porte de automóveis por civis, com exceção para casos onde há ameaça à vida da pessoa. Antes do desarmamento deveria vir a desautomobilização.

Se tudo acontecer como prevejo, somente poderão andar motorizados os responsáveis pela garantia da segurança pública, integrantes das Forças Armadas, policiais, agentes de inteligência e agentes de segurança privada. E civis com porte concedido pela Polícia Federal.

Quem for pego motorizado sem o porte de veículos será preso. O porte ilegal será crime inafiançável. Só pagará fiança quem for pego portando veículo de uso permitido e estando registrado em seu nome. Se o porte ilegal de veículo for de uso restrito, além de ser crime inafiançável, o réu não terá direito à liberdade provisória. O mesmo tratamento terá quem praticar o comércio ilegal e o tráfico internacional de veículos automotores.

Os automóveis apreendidos ou entregues pela população serão destruídos pelo Comando do Exército.

Sou da paz, e devagar vai-se indo.

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13/6/2005

Ameaça

Estocado às 06:11 em
por Paulo [brabo!]

Bernard Charbonneau, comparsa de Jacques Ellul no sensatíssimo movimento anárquico-cristão que agitou a Europa no início do século XX, desconfiava como Tolkien dos efeitos da tecnologia sobre a produção, o meio ambiente e a sociedade.

Porém, exatamente como Tolkien, Charbonneau e Ellul não eram ingênuos de acreditar que a principal afronta do progresso tecnológico era contra a paisagem.

“É precisamente isso que distinguía Ellul de todos os totalitaristas, panteístas e naturalistas daquele tempo”, diz Charbonneau. “Minha idéia – embora tenha sido inteiramente mal compreendida pelos ecologistas – é que o progresso não é uma ameaça à natureza, mas à liberdade”.

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