Farah
Falei hoje com o Farah ao telefone pela primeira vez. Figura.
Falei hoje com o Farah ao telefone pela primeira vez. Figura.
Antes da Expedição Cordel eu e o Julian só conhecíamos a imagem projetada um do outro. Ai de nós, porque agora nos conhecemos pessoalmente e não temos mais ilusões.
A imagem projetada do Julian era a do artista meio fora de centro cuja obra tendia ao deliciosamente grotesco ; um homem que conhecia Neil Gaiman, morava no bairro de Sinead O’Connor e cuja fibra moral o levava a recusar trabalhos para a Disney; um diretor de teatro que uma resenha recente do New York Times havia descrito (com justiça, garantem-me testemunhas independentes) como “um mestre do equilíbrio”.
A imagem que eu projetava para o Julian era, creio, de um santo que havia renunciado às glórias do mundo e vivia frugalmente, eternamente descalço, numa casinha de madeira no meio do nada; um artista que tendia ao rococó, brincava com as proporções e usava cores fortes; um eremita cristão, marginal e anarquista, defensor dos oprimidos e conhecido por suas tiradas sarcásticas.
Por mais acuradas que fossem (e talvez sejam), essas descrições são seletivas e superlativas; não têm como sobreviver a um exame mais de perto. Durante quase três semanas de convivência sem trégua, não tivemos escolha mas imprimir um ao outro a dura realidade das nossas limitações. De certa forma, creio que essa foi a coisa mais arriscada e importante que fizemos juntos. Repartir o tédio cru da nossa humanidade foi a essência espiritual da nossa viagem.
Ontem à noite, quanto conversávamos no messenger, brinquei com o Julian (como às vezes faço) sobre o quanto ele é famoso.
juliancrouch: mas você sabe o quanto sou sem graça
juliancrouch: na vida real
brabo: eu sou sem graça também, eu sei
juliancrouch: ah
brabo: só fascinante
brabo: à distância
brabo: é o nosso segredo
juliancrouch: não
juliancrouch: nós somos interessantes
brabo: somos?
brabo: mesmo?
brabo: caraca
juliancrouch: apenas aconteceu que anulamos as luzes um do outro
brabo: provavelmente
juliancrouch: fizemos o outro parecer normal
Outro desafortunado que me conheceu pessoalmente foi o Marcos Vasconcelos, em Recife; tivemos uma boa conversar na frente do edifício do Jornal de Comércio na Rua da Fundição, onde o Marcos trabalha. Ele, que esperava conhecer o legendário Paulo Brabo, teve de se contentar comigo.

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Pessoalmente
Há um ano atrás, na primeira vez em que mencionei o Julian aqui na Bacia, escrevi que ele era um cara simples. Acontece que o Julian lê meu português impecável com a intermediação de um tradutor automático, que traduziu a expressão “cara simples” de forma muito singela e sensata – simple face.
Lembro que alguns dias depois, no messenger, ele mencionou o quanto havia gostado de ser chamado de simple face, e perguntou exatamente o que a expressão queria dizer. Respirei fundo e escrevi (em inglês) que cara simples é uma pessoa legal, um sujeito despretensioso, um indivíduo acessível. Ele logo pediu que eu parasse, dizendo que simple face explicava melhor o que eu estava querendo dizer.
Desde então o Julian adotou a expressão e volta com freqüência a ela. “Fulano”, ele diz de algum amigo seu, “is a simple face.” Quando falou-me sobre o artista Dan Zanes, com quem esteve na semana passada em Nova Iorque, Julian descreveu-o apenas como “very simple faced” – como se isso explicasse tudo, e talvez explique.
Outra coisa importante que aconteceu ao Julian na semana passada foi que ele teve a oportunidade de pegar nas mãos seus primeiros cordéis de verdade – da coleção pessoal do badaladíssimo quadrinista Art Spiegelman, que ele estava visitando. Meu amigo descreveu os livrinhos com três adjetivos muito bem escolhidos: tiny, greasy, cheap paper – minúsculos, ensebados, papel barato.
Era por causa daqueles livrinhos ensebados e seus improváveis artesãos, ele deve ter se forçado a refletir, que ele estava pronto para atravessar o Atlântico. Ele estava em Nova Iorque, mas já experimentava de antemão que os cordéis são, eles mesmos, very simple faced.
Naturalmente, foi isso que o atraiu neles.
E talvez em mim, mas isso ele só vai ter certeza quando me conhecer.

FALTA 1 DIA PARA A EXPEDIÇÃO CORDEL
Indignado com todas as temeridades do caso do brasileiro morto pela polícia de Londres, e (como se vê) já influenciado pela peculiaríssima identidade visual da literatura de cordel, meu amigo britânico Julian fez estas dias duas xilogravuras digitais em memória de Jean Charles.
Clique nas imagens para ampliar.
Eu conversava ontem com meu contato de cordel em Fortaleza, o expansivo Arievaldo Viana, e falei da minha preocupação em gastar o menos possível na viagem que devo fazer com o Julian ao nordeste ainda este ano.
Arievaldo garantiu-me que no nordeste pode-se viver com pouco. “Por qualquer três reais”, ele logo me tranquilizou, “você come uma boa buchada de bode”.
Quando postei este desenho sob o título “A Girafa Oculta” no fórum de indeptharts.org, minha amiga Maeve não demorou a comentar:
“Que girafa?”
O Julian, no messenger, fez a mesma pergunta.
Outra pessoa perguntou no fórum se havia um livro para acompanhar a ilustração, e logo Jeff Wong de Nova Iorque, Maeve da Austrália e Maia, da África do Sul, apressaram-se em tirar fotos para provar que sim. Veja como o tempo voa: meu primeiro livro em inglês, publicado em três continentes, e eu ainda nem li.
Clique nas fotos para ver maior.
Minha visita à Academia Brasileira de Literatura de Cordel não poderia ter sido mais feliz. Inútil descrever o carinho e a compaixão com que fui recebido pelo Gonçalo e por sua esposa Maria do Livramento (Mena) na sua casa e na sede anexa da Academia. Direi apenas que o presidente Gonçalo é um sujeito de muitíssimo bom humor e cheio daquela humildade que, sei por experiência própria, é característica de todo homem de gênio. Dêmo-nos muito bem, eu e ele. Gonçalo mostrou-se pelo menos tão docemente sarcástico quanto eu, e chamou-me desde o primeiro instante de Paulinho.
A sede da Academia fica numa região privilegiadíssima do Rio de Janeiro, um bairro que eu ainda não conhecia e chama-se Santa Teresa: um amplo morro pontuado de árvores frondosas, praças preguiçosas, casas muito antigas e ladeiras riscadas pelos trilhos de um bonde amarelo que ainda funciona. Da sala de estar do Gonçalo abre-se uma bonita vista para o prédio da Central e a ponte Rio-Niterói. Fui forçado a concluir que pelos meus critérios o Rio de Janeiro continua lindo – especialmente devido aos onipresentes morros arborizados, que erguem-se a cada esquina em que você não esperava encontrá-los, e às casas antigas, mais numerosas que olhos passando de carro podem abracar.
Estava numa das salas da Academia e acabei conhecendo também a professora Laiz Capra, fazendo pesquisas preliminares sobre Patativa do Assaré para sua tese de doutorado na Universidade de Nottingham. Como se fosse a coisa mais natural do mundo.
Sobre as idéias que me passaram pela cabeça ao ver-me finalmente adentrando esse riquíssimo santuário do cordelário popular, terei muito ainda a dizer oportunamente. Basta dizer que este cabra sulino já sabe dizer a diferença entre um côco dobrado, um mourão e uma sextilha.

Um dos folhetos de cordel que comprei na loja da Academia foi um que eu já havia lido por inteiro no sáite da internet: o memorável A Discussão do Carioca com o Pau-de-Arara, de Apolônio Alves dos Santos. Meu momento favorito (devendo ser apreciado com o apropriado sótaque nordestino):
Respondeu o carioca
não queira tanto agravar
seu nordeste é muito bom
mas lá ninguém quer ficar
deixou lá seu pé de serra
e veio pra minha terra
para poder escapar
Aqui também me pertence
o nortista respondeu
eu sou nato brasileiro
o Brasil é todo meu
o homem precisa andar
para poder desfrutar
do país onde nasceu
O Brasil é todo meu – eu não teria dito melhor. Para ler A Discussão na íntegra, clique aqui.
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