12/11/2005

Nasci em 1967

Estocado às 05:16 em
por Paulo [brabo!]

O período de cem anos com o ano 2000 como seu ponto central marcará três outras transições importantes e únicas na história da humanidade. Em primeiro lugar, ninguém que morreu antes de 1930 viveu num período durante o qual a população mundial dobrou de tamanho. Da mesma forma, ninguém nascido depois de 2050 provavelmente viverá um período em que a população mundial dobrará de tamanho.

Em contraste, todos que têm hoje 45 anos de idade ou mais já testemunharam mais do que uma duplicação de a humanidade, de três bilhões em 1960 a 6.5 bilhões em 2005. A maior taxa de crescimento populacional já alcançada, cerca de 2.1 por cento ao ano, ocorreu entre 1965 e 1970. A população humana nunca cresceu tão rápido antes do século XX e provavelmente nunca crescerá novamente a essa taxa.

Nossos descendentes irão olhar para o pico do final da década de 1960 como o evento demográfico mais significativo da história da população humana, embora aqueles de nós que a experimentaram não tenham sido capazes de reconhecê-lo naquela ocasião.

Joel E. Cohen, Scientifica American

Leia também:
O último tio da terra

The century with 2000 as its midpoint marks three additional unique, important transitions in human history. First, no person who died before 1930 had lived through a doubling of the human population. Nor is any person born in 2050 or later likely to live through a doubling of the human population. In contrast, everyone 45 years old or older today has seen more than a doubling of human numbers from three billion in 1960 to 6.5 billion in 2005. The peak population growth rate ever reached, about 2.1 percent a year, occurred between 1965 and 1970. Human population never grew with such speed before the 20th century and is never again likely to grow with such speed. Our descendants will look back on the late 1960s peak as the most significant demographic event in the history of the human population even though those of us who lived through it did not recognize it at the time….

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21/9/2005

O último tio da terra

Estocado às 06:38 em
por Paulo [brabo!]

Um artigo da última Scientific American opina que a humanidade está numa encruzilhada sem precendentes – um momento de decisão marcado por coordenadas como energia, poluição, população, biodiversidade, saúde pública, alimentação, água, empregos e clima. Individualmente esses fatores sempre representaram problema, mas nunca neste grau e de forma tão interrelacionada quanto neste primeiro degrau do milênio.

O ano de 2005 marca o fulcro central de uma década que representará três transições fundamentais e únicas na história da humanidade. Antes do ano 2000 o número de jovens sempre foi maior do que o número de velhos. Desde 2000 há mais gente velha do que nova. Historicamente, sempre houve mais gente morando no campo do que na cidade. De 2007 em diante a população urbana será mais numerosa do que a rural. Desde 2003 as mulheres ao redor do mundo têm tido e continuarão a ter, em média, filhos suficientes apenas para repor o seu próprio lugar e o do pai na geração seguinte – ou menos.

As três mudanças são avassaladoras em sua singularidade e suas conseqüências, mas a última me pegou particularmente de jeito. Eu, que como muitos idealizo e sinto falta da grande família grande, vou continuar sentindo.

As tendências são evidentes na vida diária. Muitos de nós já tiveram a experiência de se perder na sua cidade natal, que cresceu ao ponto de não a reconhecermos mais. O crescimento, porém, tende a se desacelerar à medida que as famílias diminuem. Cada vez mais crianças crescem não apenas sem irmãos, mas sem tios, sem tias e sem primos.

Caracas, crescer sem irmãos já me parece suficientemente ruim, mas sobreviver sem tios, tias e primos me parece inconcebível. Chegará o dia em que o último tio dará o seu último suspiro e então seu cargo será uma curiosidade, mera nota de rodapé no museu de figuras históricas que não existem mais – ao lado de “taquígrafo”, “meeirinho” e do sujeito que acendia as lamparinas nas esquinas quando anoitecia.

Os jantares de final de ano da família terão, no máximo, oito pessoas – normalmente, apenas três.

FALTAM 3 DIAS PARA A EXPEDIÇÃO CORDEL

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17/9/2005

Rousseau e outros ladrões das minhas idéias

Estocado às 08:33 em
por Paulo [brabo!]

A inveja literária, a vontade de ter escrito o que outro escreveu, é sensação conhecida dos andarilhos impenitentes que percorrem tantas páginas que passam a acreditar em algum mérito inerente na experiência literária. Levada ao passo seguinte, a tendência faz-nos crer que a experiência de leitor não basta. Em algum momento passamos a ver a literatura como um país que pode ser não apenas apreciado de longe, mas talvez invadido. O direiro de ir e vir deve estender-se às letras, cremos, e a literatura pode ser também nosso território: queremos estabelecer as suas fronteiras, definir os melhores destinos e dar nome aos seus cumes. Apenas não estamos preparados para, depois do esforço, encontrarmos já no topo uma bandeira.

É ultrajante. Não apenas Borges, mas também Tolkien e uma infinidade de asseclas maiores e menores roubaram descaradamente idéias que deveriam ser minhas.

Há meses que planejo escrever para a Bacia um artigo chamado “O Último Pudor”. Roubei eu mesmo a idéia, como acontece com freqüência, de uma ou duas frases indignadas do Ivan. O conceito me parece na verdade tão fundamental que venho adiando a composição desse artigo para quando tiver mais tempo, certamente para depois da Expedição Cordel.

Pois, lendo esses dias o Discurso de Rousseau, que emprestei da Alice e do qual já roubei uma boa goiaba, fiquei surpreso (e inteiramente indignado) ao encontrar um parágrafo que poderia ter sido extraído diretamente do artigo que ainda quero escrever!

O trecho que Rousseau roubou de mim em 1750 é o seguinte:

Hoje, quando pesquisas mais sutis e um gosto mais refinado reduziram a princípios a arte de agradar, reina em nossos costumes uma vil e enganosa uniformidade, e todos os espíritos parecem ter sido lançados numa mesma fôrma: incessantemente seguem-se os hábitos tradicionais, jamais a própria índole. Já não se ousa parecer o que se é; e, nessa coerção perpétua, os homens, que formam esse rebanho a que se chama sociedade, postos nas mesmas circunstâncias, farão todos as mesmas coisas, se motivos mais fortes não os desviarem. Portanto, nunca se saberá com quem se está lidando: será preciso, pois, para conhecer o amigo, esperar as grandes ocasiões, ou seja, esperar que já não haja tempo para tanto, uma vez que é para essas mesmas ocasiões que seria essencial conhecê-lo.

Como se vê, Rousseau não apenas apropria-se dos temas e argumentos que me são mais caros, mas também do meu estilo. A baixeza!

O leitor mais distraído da Bacia poderá reconhecer imediatamente no trecho citado o meu próprio estilo, as minhas ênfases, o meu pontuado e semipedante sarcasmo. Perceba como ele rouba o advérbio “incessantemente”, que uso eu mesmo incessantemente, e que, pensando bem, posso talvez ter roubado como tantas coisas de Borges.

Agora não sei mais. Sou uma farsa e não tenho mais como dizer que goiaba não roubei.

FALTAM 7 DIAS PARA A EXPEDIÇÃO CORDEL

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14/9/2005

Povos policiados

Estocado às 09:50 em
por Paulo [brabo!]

Enquanto o governo e as leis suprem à segurança e ao bem-estar dos homens reunidos, a ciência, as letras e as artes, menos despóticas e talvez mais poderosas, estendem guirlandas de flores nas correntes de ferro que eles carregam, sufocam-lhes o sentimento dessa liberdade original para a qual pareciam ter nascido, fazem-nos amar a sua escravidão e formam o que chamamos de povos policiados.

A necessidade ergueu os tronos, as ciências e as artes os consolidaram. Poderosos da terra, amai os talentos, e protegei aqueles que os cultivam. Povos policiados, cultivai-os; felizes escravos, vós lhes deveis este gosto delicado e fino de que vos vangloriais, essa mansidão de caráter e essa urbanidade de costumes que tornam tão ameno e fácil o trato entre vós; em suma, a aparência de todas as virtudes, sem possuir nenhuma delas.

J. J. Rousseau, em seu Discurso premiado de 1750

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12/9/2005

EM COMPARAÇÃO - O dinheiro compra felicidade

Estocado às 06:01 em
por Paulo [brabo!]

Gente rica tende a ser mais feliz do que gente pobre, sustenta uma pesquisa recente da Universidade da Pensilvânia. A pesquisa concluiu ainda que as pessoas em geral avaliam a sua “felicidade financeira” menos a partir das coisas que o seu dinheiro pode comprar do que pela comparação da sua própria renda com a de outras pessoas.

“Ao avaliar a sua própria renda os indivíduos costumam compará-la à de gente da mesma idade. Dessa forma, o alegado nível de felicidade de cada um depende do seu desempenho financeiro em comparação ao de outros na mesma faixa etária.”

Em retrospecto, essa conclusão deveria parecer óbvia. Em algum momento do século XX, como parte da catequização do capitalismo, fomos ensinados a avaliar o quanto somos ricos não a partir do que possuímos, mas a partir de quanto os outros são mais pobres do que nós.

Os outros são a medida da nossa felicidade, e a inveja é nosso exigentíssimo motor.

Embora tenhamos muito mais do que os mais ricos de vinte anos atrás, fomos ensinados a crer que o que temos não pode efetivamente nos satisfazer. Para manter o capitalismo rodando, não podemos nos concentrar em tudo de satisfatório que já possuimos, mas naquilo que possuem os consumidores mais eficazes do que nós. Os outros são a medida da nossa felicidade, e a inveja é nosso exigentíssimo motor. Afinal de contas, alguém tem sempre renda maior – alguém é sempre mais feliz.

“Ao invés de promover a felicidade integral, o crescimento contínuo da renda acaba promovendo uma guerra de consumo, em que os indivíduos consomem mais e mais apenas para manter um nível constante de felicidade.”

Certo está o Néviton, que insiste que rico de verdade é quem não tem nada a perder.


Leia também:
A ansiedade das coisas

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7/9/2005

Independência ou morte…

Estocado às 08:20 em
por Paulo [brabo!]

...mas não para as mesmas pessoas ao mesmo tempo.

O Brasil é o oitavo país em desigualdade social, na frente apenas da latina-americana Guatemala, e dos africanos Suazilândia, República Centro-Africana, Serra Leoa, Botsuana, Lesoto e Namíbia.

De acordo com o documento, no Brasil 46,9% da renda nacional concentram-se nas mãos dos 10% mais ricos. Já os 10% mais pobres ficam com apenas 0,7% da renda.

Aqui há distribuição de tarefas: uns ficam com a independência, outros com a morte.




Brasil é oitavo país em desiguladade social, diz pesquisa
da Folha Online, em Brasília e SP

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28/8/2005

Meros consumidores

Estocado às 06:22 em
por Paulo [brabo!]

Creio que a presente crise tem as suas raízes num grande experimento duplo que fracassou, e afirmo que a resolução da crise começa com o reconhecimento do fracasso. Por cem anos temos tentado fazer com que as máquinas trabalhem para o homem, e tentado ensinar os homens a uma vida ao serviço delas. Acontece que as máquinas não “trabalham”, e as pessoas não podem ser ensinadas a uma vida ao serviço das máquinas. A hipótese na qual a experiência foi baseada deve agora ser descartada. A hipótese era que as máquinas podem substituir os escravos. A evidência mostra que, usadas com esse propósito, as máquinas escravizam os homens.

[...]

Nos países ricos, os prisioneiros tem com freqüência acesso a mais coisas e serviços do que os membros de suas famílias, mas não tem direito a opinar sobre como as coisas são feitas e não podem decidir o que fazer com elas. Sua punição consiste em serem privados do que chamo de “convivência”. São reduzidos ao status de meros consumidores.

Escolho o termo convivência para designar o oposto da produtividade industrial. Quero designar com o termo uma relação autônoma e criativa entre pessoas, e a relação de pessoas com seu meio-ambiente; e isso em contraste com a resposta condicionada de pessoas às exigências feitas sobre elas por outros, e por um meio-ambiente criado pelo homem. Considero a convivência como sendo a liberdade individual colocada em efeito na interdependência pessoal e, como tal, um valor ético intrínseco. Creio que, em qualquer sociedade, quando a convivência é reduzida abaixo de determinado nível, não há acréscimo de produtividade industrial que possa efetivamente satisfazer as necessidades que gera entre os membros da sociedade.

Ivan Illich, em Ferramentas de Convivência

Leia também:
Vítimas do século XX
A integridade das coisas

I believe that this crisis is rooted in a major twofold experiment which has failed, and I claim that the resolution of the crisis begins with a recognition of the failure. For a hundred years we have tried to make machines work for men and to school men for life in their service. Now it turns out that machines do not “work” and that people cannot be schooled for a life at the service of machines. The hypothesis on which the experiment was built must now be discarded. The hypothesis was that machines can replace slaves. The evidence shows that, used for this purpose, machines enslave men.

[...] Prisoners in rich countries often have access to more things and services than members of their families, but they have no say in how things are to be made and cannot decide what to do with them. Their punishment consists in being deprived of what I shall call “conviviality.” They are degraded to the status of mere consumers.

I choose the term “conviviality” to designate the opposite of industrial productivity. I intend it to mean autonomous and creative intercourse among persons, and the intercourse of persons with their environment; and this in contrast with the conditioned response of persons to the demands made upon them by others, and by a man-made environment. I consider conviviality to be individual freedom realized in personal interdependence and, as such, an intrinsic ethical value. I believe that, in any society, as conviviality is reduced below a certain level, no amount of industrial productivity can effectively satisfy the needs it creates among society’s members.

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