15/9/2005

Voltando a Borges

Estocado às 06:22 em
por Paulo [brabo!]

Jorge Luis Borges tinha, admitidamente, suas obsessões – temas aos quais sempre voltava: tigres, labirintos, espadas, deuses nórdicos, a doutrina do Eterno Retorno. Eu também tenho as minhas, e a menor delas não é o próprio Borges, a quem não tenho outra escolha mas voltar incessantemente.

Já foi observado (inclusive, com mais enfado que modéstia, pelo próprio) que a obra do ficcionista Borges pressupunha uma concisão sem precedentes: seus contos expressam em dez páginas o que requereria, de outro, quinhentas.

“Livros sagrados, ou seja, livros que ensinam o que ensina o universo inteiro ou a consciência de cada homem”.

Porém o Borges dos ensaios é, estilisticamente, indistingüível do autor dos contos. Invejo (e quem me conhece sabe o quão desastradamente tento imitar) sua capacidade de encapsular filosofias inteiras em duas ou três fases alucinantes. Suas idéias, mais do que qualquer outro que conheço, verdadeiramente não descansavam. Seus textos são únicos no que têm de exigentes e compensadores. A quantidade de idéias por centímetro quadrado é assombrosa. Minha tentação é citar o velho Borges parágrafo por parágrafo e frase por frase, para sempre e até a exaustão, para ver se aprendo ou ensino alguma coisa com ele.

Felicidades como “livros sagrados, ou seja, livros que ensinam o que ensina o universo inteiro ou a consciência de cada homem” – fecundíssima jóia que aparece entre outras, quase casualmente, no colar que é A Muralha e os Livros.

Ah, quem me dera ter escrito isso. Tudo.

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31/8/2005

A MURALHA E OS LIVROS

Estocado às 02:04 em
por Paulo [brabo!]

He, whose long wall the wand’ring Tartar bounds.
DUNCIAD, II, 76.

Li, dias passados, que o homem que ordenou a edificação da quase infinita muralha chinesa foi aquele primeiro Imperador, Shih Huang Ti, que semelhantemente outorgou que se queimassem todos os livros anteriores a ele. Que essas duas vastas operações – as quinhentas ou seiscentas léguas de pedra opondo-se aos bárbaros, a rigorosa abolição da história, a saber, do passado – tenham procedido de uma única pessoa e terem sido de alguma forma seus atributos, satisfez-me inexplicavelmente e, ao mesmo tempo, me inquietou. Indagar as razões dessa emoção é a finalidade desta nota.

Historicamente, não há qualquer mistério nas duas medidas. Contemporâneo das guerras de Aníbal, Shih Huang Ti, rei de Tsin, reduziu ao seu poder os Seis reinos e apagou o sistema feudal; erigiu a muralha, porque as muralhas eram defesas; queimou os livros, porque a oposição os invocava para louvar os antigos imperadores. Queimar livros e erigir fortificações é tarefa comum de príncipes; a única coisa singular em Shih Huang Ti foi a escala em que trabalhou. Assim dão a entender alguns sinólogos, mas eu sinto que os feitos a que me referi sejam algo mais do que um exagero ou uma hipérbole de disposições triviais. Cercar um pomar ou jardim é coisa comum; não o é cercar um império. Também não é pouca coisa pretender que a mais tradicional das raças renuncie à memória do seu passado, mítico ou verdadeiro. Três mil anos de cronologia tinham os chineses (e, nesses anos, o Imperador Amarelo e Chuang Tzu e Confúcio e Lao Tsé) quando Shih Huang Ti ordenou que a história começaria com ele.

Shih Huang Ti havia desterrado sua mãe por libertina; em sua dura justiça, os ortodoxos não viram outra coisa que não uma impiedade; Shih Huang Ti, talvez, quis apagar os livros canônicos porque estes o acusavam; Shih Huang Ti, talvez, quis abolir todo o passado para abolir uma única recordação: a infâmia de sua mãe. (Não de outra sorte um rei, na Judéia, quis matar todos os meninos para matar a um.) Esta conjectura é aceitável, mas nada nos diz da muralha, a segunda face do mito. Shih Huang Ti, segundo os historiadores, proibiu que se mencionasse a morte e buscou o elixir da imortalidade e enclausurou-se num palácio figurativo, que constava de tantos aposentos quanto há dias no ano; estes dados sugerem que a muralha no espaço e o incêndio no tempo foram barreiras mágicas destinadas a deter a morte. Todas as coisas querem persistir em seu ser, escreveu Baruch Spinoza; talvez o Imperador e seus magos creram que a imortalidade é intrínseca e que a corrupção não pode penetrar uma esfera fechada. Quem sabe o Imperador quis recriar o princípio do tempo e deu a si mesmo o nome de Primeiro, para ser realmente primeiro, e se chamou Huang Ti, para ser de algum modo Huang Ti, o lendário imperador que inventou a escrita e a bússola. Este, segundo o Livro dos Ritos, deu o nome verdadeiro a todas as coisas; similarmente, Shih Huang Ti se vangloriou, em inscrições que perduram, de que todas as coisas debaixo do seu império tiveram o nome que lhes convém. Sonhou fundar uma dinastia imortal; ordenou que seus herdeiros se chamassem Segundo Imperador, Terceiro Imperador, Quarto Imperador e assim até o infinito… Falei de um propósito mágico; também caberia supor que erigir a muralha e queimar os livros não foram atos simultâneos. Isto (segundo a ordem que escolhêssemos) nos daria a imagem de um rei que começou por destruir e logo se resignou a conservar, ou a de um rei desenganado que destruiu o que antes defendia. Ambas as conjecturas são dramáticas, mas carecem, que eu saiba, de base histórica. Herbert Allen Giles conta que os que ocultaram livros foram marcados com um ferro candente e condenados a construir, até o dia de sua morte, a indócil muralha. Esta nota favorece ou tolera uma outra interpretação, Talvez a muralha tenha sido uma metáfora, talvez Shih Huang Ti tenha condenado os que adoravam o passado a uma obra tão vasta quanto o passado, tão torpe e tão inútil. Talvez a muralha tenha sido um desafio e Shih Huang Ti tenha pensado: “Os homens amam o passado e contra este amor nada posso, não o podem meus verdugos, mas haverá em alguma ocasião um homem como eu, e este destruirá a minha muralha, como eu destruí os livros, e este apagará a minha memória e será minha sombra e meu espelho e não saberá.” Talvez Shih Huang Ti tenha cercado de muralhas o seu império porque sabia que este era desejável e tenha destruído os livros por entender que eram livros sagrados, ou seja, livros que ensinam o que ensina o universo inteiro ou a consciência de cada homem. Talvez o incêndio das bibliotecas e a edificação da muralha sejam operações que de um modo secreto se anulam.

A muralha tenaz que neste momento, e em todos, projeta sobre terras que não verei o seu sistema de sombras, é a sombra de um césar que ordenou que a mais reverente das nações queimasse seu passado; é verossímil que a idéia nos toque por si mesma, de forma independente das conjecturas que permite. (Sua virtude pode estar na oposição de construir e destruir, em enorme escala.) Generalizando o caso anterior, poderíamos inferir que todas as formas têm sua virtude em si mesmas e não num “conteúdo” conjectural. Isto concorda com a tese de Benedetto Croce; já Pater, em 1877, afirmou que todas as artes aspiram à condição da música, que não é outras coisa além de forma. A música, todos os estados de felicidade, a mitologia, as faces trabalhadas pelo tempo, certos crepúsculos e certos lugares querem dizer-nos algo, ou algo disseram que não deveríamos tido perder, ou estão por dizer algo; essa iminência de uma revelação que não se produz é, talvez, o ato estético.

Buenos Aires, 1950.

Jorge Luis Borges, Otras inquisiciones (1952)

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19/9/2004

Borges e a glorificação do argumento

Estocado às 06:45 em
por Paulo [brabo!]

Nenhum escritor me intriga mais do que Jorge Luis Borges. Nenhum me satisfaz mais, e deixo aqui minhas desculpas a Shakespeare e a Lovecraft, mas também a inúmeros outros.

Em breves momentos de lucidez sou obrigado, no entanto, a reconhecer que a posição de Borges na literatura é pelo menos única – para não dizer precária. Eis aqui um autor menor que alcançou a consagração através de um gênero menor, a história curta; a poesia o interessava muito mais do que me interessa, mas como poeta Borges está apenas eventualmente acima do medíocre; sua obra “visível” não está nos austeros volumes de capa bege das Obras Completas, mas confinada entre as páginas de dois livros pequenos: O Aleph e Ficciones.

Já pensei em defender a teoria de que a maior sacada de Borges está encapsulada em duas de suas características: primeiro, seu estilo sintético, pseudo-clássico, que dá a impressão (quase acertada) de que estamos diante do narrador último e indefectível. Segundo, seu insight metalingüístico de tecer histórias ao redor de livros; os contos de Borges são quase sempre livros dentro de livros falando de livros. Para o leitor obcecado com a literatura (e, naturalmente, apenas o leitor é obcecado com a literatura), o encanto de Borges é evidente. O amante de livros sente-se mais tocado pela sua própria paixão por livros, adequadamente celebrada e incitada por Borges, do que pelo destino ou pelas peripécias de Quixote ou de Capitu. continue lendo>

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