8/11/2005

A sabedoria de João Grilo

Estocado às 05:41 em
por Paulo [brabo!]

O menino gente boa e desaforado da primeira parte de As Proezas de João Grilo acaba virando um cabra desaforado e gente boa.

Na segunda parte do folheto (escrita em setilhas, os versos de sete linhas que são minha forma favorita de poesia de cordel) Grilo é convidado por um sultão a passar por uma prova de inteligência, uma exigente bateria de perguntas e enigmas. João Grilo aceita, viaja ao reino do sultão e responde as perguntas do monarca sem dificuldade e com muito bom humor. Ao final da prova ele é nomeado, como José do Egito, conselheiro do rei.

E todas as questões do reino
era João que deslindava
qualquer pergunta difícil
ele sempre decifrava
julgamentos delicados
problemas muito enrascados
era João que desmanchava.

Segue meu caso favorito, seu senso de justiça quase shakesperiano:

Certa vez chegou na corte
um mendigo esfarrapado
com uma mochila nas costas
dois guardas de cada lado
seu rosto cheio de mágoa
os olhos vertendo água
fazia pena o coitado. continue lendo>

Este é o velho sáite da Bacia das Almas, que não será mais atualizado. Para ler os novos artigos e acessar os comentários visite o novo endereço: www.baciadasalmas.com


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18/10/2005

As proezas de João Grilo

Estocado às 06:30 em
por Paulo [brabo!]

Conforme lembrou o pau-de-arara na sua discussão com o carioca,

O Brasil é todo meu
o homem precisa andar
para poder desfrutar
do país onde nasceu.

O Brasil é um vasto enigma, um labirinto de proporções continentais, e é preciso de várias indicações (em geral muito distantes umas das outras) para se começar a deslindar esse fio. Uma das surpresas da minha viagem ao nordeste foi encontrar sem estar procurando algumas chaves que me ajudaram a compreender um tiquinho a mais o Brasil – e portanto, compreender mais a mim mesmo.

Ainda no Rio de Janeiro, depois de assistirmos pela primeira vez aO Auto da Compadecida, perguntou-me o Julian se o personagem de João Grilo era tradicional no nosso folclore ou havia sido criado para a peça [de teatro que gerou o filme]. Muito ignorante, afirmei que nunca tinha ouvido falar do João Grilo antes do Auto e disse que achava que Ariano Suassuna o tinha tirado da própria cachola com base no perfil do nordestino ladino (que também aparece na discussão com o carioca).

Logo que cheguei a Fortaleza o Engenhoso Fidalgo Dom Arievaldo Viana, ele mesmo um dos mais ladinos e talentosos cordelistas da nova geração, corrigiu na lata a minha impressão. Explicou-me o Ari (naquele restaurante na beira da praia que para seu desespero cobrava quatro reais e oitenta centavos a garrafa de cerveja) que João Grilo é figura tradicionalíssima da literatura de cordel e mais ainda – que veio importado até da Europa.

A diferença entre o João Grilo do nordeste e o das Europas, disse-me Ari e confirmam todas as fontes, é que na travessia do Atlântico ele espertou. Segundo o pesquisador Ribamar Lopes, o João Grilo que aparece nos contos populares portugueses “em nada se parece com o nosso endiabrado, inteligente e ardiloso João Grilo nordestino em que o transformamos. O personagem de um dos mais conhecidos contos da tradição oral portuguesa é um tolo, um falso adivinhão favorecido pelas circunstâncias.” O João Grilo português é um simplório que leva a melhor sem qualquer premeditação e por pura sorte – um antepassado transatlântico de Forrest Gump.

O João Grilo brasileiro, mais chegado à malandra linhagem de Pedro Malazarte, é um cabra pobre que aprende a usar artimanhas para vencer os poderosos e corrigir injustiças. É, sem tirar nem pôr, o personagem feio, “amarelo”, desnutrido, franzinho e atinado que aparece em O Auto da Compadecida. Seu primeiro grande celebrador foi o poeta João Ferreira de Lima, que publicou na década de 1930 um folheto de oito páginas chamado As palhaçadas de João Grilo, mas tarde ampliado por outro autor e publicado sob o título Proezas de João Grilo.

O João Grilo de João Ferreira de Lima é ainda um moleque mirrado e malcriado; é apenas na segunda porção das Proezas de João Grilo, redigida na década de 1940 por Delarme Monteiro (ou talvez João Martins de Athayde) e acrescentada ao texto de João de Lima, que toma corpo o Grilo sábio e justiceiro que aparece no Auto.

Da primeira fase de João Grilo, a de moleque, recitou-me Arievaldo Viana, na mesma noite e antes de partirmos para um baião de dois e carne de sol no Dragão do Mar, os seguintes e impagáveis versos:

Um dia a mãe de João Grilo
Foi buscar água à tardinha
Deixou João Grilo em casa
E quando deu fé, lá vinha
Um padre pedindo água
Nessa ocasião não tinha

João disse: só tem garapa
Disse o padre: d’onde é?
João Grilo lhe respondeu:
É do engenho Catolé
Disse o padre: pois eu quero
João levou uma coité1.

O padre bebeu e disse:
Oh! Que garapa boa!
João Grilo disse: quer mais?
O padre disse: e a patroa
Não brigará com você?
João disse: tem uma canoa

João trouxe uma coité
Naquele mesmo momento
Disse ao padre: bebe mais
Não precisa acanhamento
Na garapa tinha um rato
Estava podre e fedorento

O padre disse: menino
Tenha mais educação
E porque não me disseste?
Oh! Natureza do cão!
Pegou a dita coité
Arrebentou-a no chão.

João Grilo disse: danou-se!
Misericórdia, São Bento!
Com isso mamãe se dana
Me pague mil e quinhentos
Esse coité, seu vigário
É de mamãe mijar dentro.

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Digilogravuras deste que vos fala

1 Cuia feita da casca da fruta coité.

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19/8/2005

Padre Nosso do Imposto

Estocado às 06:34 em
por Paulo [brabo!]

Nunca se viu tanto imposto
Num país como esse nosso
Cobra-se até de quem reza
Padre Nosso.

Nos falta calçado e roupa
Quem compra mais um chapéu?
Acode-nos, pai da pobreza
Que estás no céu.

Olhe que o pobre matuto
Que vê o milho encostado,
Não pode guardar nem um dia
Santificado.

Carne fresca e toucinho
O pobre matuto não come,
Ainda que, o que ele implore
Seja o vosso nome.

Meu Deus! Temos esperança
Só no socorro de vós,
Fazei que um bom inverno
Venha a nós.

De rato, lagarta e formiga
Vos pedimos, defendei-nos
Imploramos todos os dias
Ao vosso reino.

Livrai-nos que contra nós
Caia a ira do prefeito
E o mercado da cidade
Seja feito.

Fazei que caia o imposto
Da municipalidade
Mas, queira Deus eles façam
A vossa vontade.

O estado nos oprime,
O município faz guerra,
Nunca se viu tanto imposto
Assim na terra.

Queixa-se o povo em geral
Que vive como tetéu
E o governo vive aqui
Como no céu…
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20/7/2005

A Discussão do Carioca com o Pau-de-Arara

Estocado às 06:53 em
por Paulo [brabo!]

Minha visita à Academia Brasileira de Literatura de Cordel não poderia ter sido mais feliz. Inútil descrever o carinho e a compaixão com que fui recebido pelo Gonçalo e por sua esposa Maria do Livramento (Mena) na sua casa e na sede anexa da Academia. Direi apenas que o presidente Gonçalo é um sujeito de muitíssimo bom humor e cheio daquela humildade que, sei por experiência própria, é característica de todo homem de gênio. Dêmo-nos muito bem, eu e ele. Gonçalo mostrou-se pelo menos tão docemente sarcástico quanto eu, e chamou-me desde o primeiro instante de Paulinho.

A sede da Academia fica numa região privilegiadíssima do Rio de Janeiro, um bairro que eu ainda não conhecia e chama-se Santa Teresa: um amplo morro pontuado de árvores frondosas, praças preguiçosas, casas muito antigas e ladeiras riscadas pelos trilhos de um bonde amarelo que ainda funciona. Da sala de estar do Gonçalo abre-se uma bonita vista para o prédio da Central e a ponte Rio-Niterói. Fui forçado a concluir que pelos meus critérios o Rio de Janeiro continua lindo – especialmente devido aos onipresentes morros arborizados, que erguem-se a cada esquina em que você não esperava encontrá-los, e às casas antigas, mais numerosas que olhos passando de carro podem abracar.

Estava numa das salas da Academia e acabei conhecendo também a professora Laiz Capra, fazendo pesquisas preliminares sobre Patativa do Assaré para sua tese de doutorado na Universidade de Nottingham. Como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Sobre as idéias que me passaram pela cabeça ao ver-me finalmente adentrando esse riquíssimo santuário do cordelário popular, terei muito ainda a dizer oportunamente. Basta dizer que este cabra sulino já sabe dizer a diferença entre um côco dobrado, um mourão e uma sextilha.




Um dos folhetos de cordel que comprei na loja da Academia foi um que eu já havia lido por inteiro no sáite da internet: o memorável A Discussão do Carioca com o Pau-de-Arara, de Apolônio Alves dos Santos. Meu momento favorito (devendo ser apreciado com o apropriado sótaque nordestino):

Respondeu o carioca
não queira tanto agravar
seu nordeste é muito bom
mas lá ninguém quer ficar
deixou lá seu pé de serra
e veio pra minha terra
para poder escapar

Aqui também me pertence
o nortista respondeu
eu sou nato brasileiro
o Brasil é todo meu
o homem precisa andar
para poder desfrutar
do país onde nasceu

O Brasil é todo meu – eu não teria dito melhor. Para ler A Discussão na íntegra, clique aqui.

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18/7/2005

Ai! Se sêsse!

Estocado às 06:17 em
por Paulo [brabo!]

Hoje, se tudo deu certo, estou na capital do Rio de Janeiro falando com Gonçalo Ferreira da Silva, venerável presidente da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, sobre a viagem do Julian ao Brasil em setembro/outubro deste ano.

Deixo este notabilíssimo poema/cordel pré-publicado para deleite do impenitente leitor da Bacia.

Ai! Se sêsse!...
Autor: Zé da Luz

Se um dia nós se gostasse;
Se um dia nós se queresse;
Se nós dois se impariásse,
Se juntinho nós dois vivesse!
Se juntinho nós dois morasse
Se juntinho nós dois drumisse;
Se juntinho nós dois morresse!
Se pro céu nós assubisse?
Mas porém, se acontecesse
qui São Pêdo não abrisse
as portas do céu e fosse,
te dizê quarqué toulíce?
E se eu me arriminasse
e tu cum insistisse,
prá qui eu me arrezorvesse
e a minha faca puxasse,
e o buxo do céu furasse?...
Tarvez qui nós dois ficasse
tarvez qui nós dois caísse
e o céu furado arriasse
e as virge tôdas fugisse!!!

FIM

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