8/11/2005

A sabedoria de João Grilo

Estocado às 05:41 em
por Paulo [brabo!]

O menino gente boa e desaforado da primeira parte de As Proezas de João Grilo acaba virando um cabra desaforado e gente boa.

Na segunda parte do folheto (escrita em setilhas, os versos de sete linhas que são minha forma favorita de poesia de cordel) Grilo é convidado por um sultão a passar por uma prova de inteligência, uma exigente bateria de perguntas e enigmas. João Grilo aceita, viaja ao reino do sultão e responde as perguntas do monarca sem dificuldade e com muito bom humor. Ao final da prova ele é nomeado, como José do Egito, conselheiro do rei.

E todas as questões do reino
era João que deslindava
qualquer pergunta difícil
ele sempre decifrava
julgamentos delicados
problemas muito enrascados
era João que desmanchava.

Segue meu caso favorito, seu senso de justiça quase shakesperiano:

Certa vez chegou na corte
um mendigo esfarrapado
com uma mochila nas costas
dois guardas de cada lado
seu rosto cheio de mágoa
os olhos vertendo água
fazia pena o coitado. continue lendo>

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6/11/2005

Milonga do muro judeu

Estocado às 07:19 em
por Paulo [brabo!]

Em cada muro um lamento
Na Jerusalém dourada
E mil vidas mal gastas
Em cada mandamento.
Eu sou pó do teu vento
E ainda sangro da tua ferida,
E cada pedra querida
Guarda meu amor mais profundo,
Não há pedra no mundo
Que valha o que vale uma vida.

Eu sou um muro judeu
Que vive entre cristãos
Não sei qual Deus é o meu
Nem quem são meus irmãos continue lendo>

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17/10/2005

A peleja da responsabilidade individual contra o nirvana

Estocado às 06:49 em
por Paulo [brabo!]

Para algumas religiões a aspiração mais elevada do homem é ser alçado para acima e além da experiência sensorial a uma união imediata com a divindade. Nessa experiência inefável a individualidade desaparece e o eu, como uma gota d’água num vasto oceano, é absorvida no Divino. Esse não é o tipo de misticismo com o qual lida o Antigo Testamento. O encontro de Moisés com Deus acentuou o seu senso de individualidade e tornou-o mais marcadamente consciente das demandas do momento histórico. No diálogo [com Deus] Moisés recebeu uma tarefa e foi convocado a tomar parte ativa no drama histórico. Com profundo discernimento religioso, a narrativa descreve a sua relutância diante do chamado e os vários protestos oferecidos por ele na tentativa de permanecer confortavelmente à margem da história. [...] O chamado divino à decisão e à responsabilidade é uma das notas características da fé de Israel.

Bernhard W. Anderson, Understanding the Old Testament

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18/9/2005

Leviticenses

Estocado às 06:57 em
por Paulo [brabo!]

De vez em quando as pessoas me perguntam o quê, exatamente, tenho contra o cristianismo, já que pareço criticá-lo com certa freqüência. Minha resposta geral é: não tenho nada contra o cristianismo. Eu queria que mais gente o praticasse. O famoso adesivo de pára-choque afirma “os cristãos não são perfeitos, só são perdoados”, mas eu às vezes fico pensando com que freqüência eles verificam com Cristo o acerto da segunda parte. Fico olhando para a imagem daquele garoto protestando em São Francisco contra o casamento de homossexuais, vestindo uma camiseta em que a palavra “bicha” está dentro de um círculo atravessada por uma faixa, e tento encontrar algo dos ensinos de Cristo naquilo. Como você pode imaginar, encontro muito pouco.

Não tenho nada contra o cristianismo. Eu queria que mais gente o praticasse.

[...]

Nos comentários ao artigo ilustrado por aquela imagem alguém se perguntou porque tantos fundamentalistas gastam tanto tempo no livro de Levítico e tão pouco tempo no Novo Testamento, e creio que essa é uma pergunta especialmente pertinente. Na verdade, é tão pertinente que eu gostaria de sugerir que existe uma classe inteira de gente que se auto-identifica como “cristãos”, mas que não são cristãos de forma alguma, no sentido de que não seguem de fato os ensinos de Cristo de qualquer forma significativa. O que essas pessoas fazem é acenar na direção de Cristo de modo superficial enquanto concentram o seu tempo nos livros mais sangrentos da Bíblia (que tendem a encontrar-se no Antigo Testamento), usando o texto seletivamente para apoiar seus próprios ódios e preconceitos, utilizando a Bíblia como cacetete ao invés de como porta. Sendo esse o caso, sugiro que paremos de chamar essa gente de cristãos, e comecemos a nomeá-los por algo apropriado à sua fé, inclinações e entusiasmos.

Sugiro que paremos de chamar essa gente de cristãos, e comecemos a nomeá-los por algo apropriado à sua fé, inclinações e entusiasmos.

Proponho que os chamemos de leviticenses, nome inspirado por Levítico, o terceiro livro do Antigo Testamento, famoso por suas regras e fonte das passagens mais freqüentemente citadas pelos leviticenses para justificar sua intolerância (inclusive, recentemente, contra gays e lésbicas, com base em Levítico 18:22: “Com homem não te deitarás, como se fosse mulher; é abominação”).

Sugerir que um cristão é na verdade um leviticense não é dizer que sua fé é falsa – ao contrário, é sugerir que sua fé encontra-se em outro lugar da Bíblia, nas partes que são fáceis de entender: as regras e regulamentos, todas as noções explícitas sobre o que você pode e não pode fazer para estar bem diante de Deus. Regras são bem mais fáceis de seguir do que a trilha verdadeira de Cristo, que requer humildade e sacrifício e a capacidade de perdoar, amar e importar-se até mesmo por aqueles a que você se opõe e que se opõem e odeiam você. Qualquer idiota pode seguir regras; de fato, há bons indícios de que idiotas só conseguem seguir regras. Eis porque os leviticenses amam Levítico (e outros livros do Pentateuco e do Antigo Testamento): ele é repleto de regras. E em regras você pode confiar. É o motivo de serem regras.

Regras são bem mais fáceis de seguir do que a trilha verdadeira de Cristo, que requer humildade e sacrifício e a capacidade de perdoar, amar e importar-se.

[...]

Sejamos claros: nem todo cristão é um leviticense; não quero sugerir isso de jeito nenhum. Nem todo fundamentalista cristão é leviticense. E nem toda pessoa que crê que é moralmente errado permitir o casamento de homossexuais é tampouco leviticense. (Também para ficar claro: embora o Levítico seja parte da Torá, não vejo muitos leviticenses entre os judeus, que pela minha experiência vêem a Torá como um trampolim para abraçar o mundo ao invés de como uma defesa contra ele). Gente de bem pode discordar, e veementemente, sobre o que é certo e o que é errado, sobre o que é moral e o que é imoral, e sobre o que deveria ser feito a respeito. O que faz um leviticense, na minha opinião pelo menos, é a sua capacidade de transmutar as suas crenças em ódio e intolerância, a fim de privar outros de direitos de que deveriam desfrutar. Os leviticenses sempre estiveram entre nós. Eles citavam a Bíblia para justificar a escravidão. Eles citavam a Bíblia para tentar manter as mulheres em casa. Eles citavam a Bíblia para manter as raças puras. Eles citam a Bíblia para impedir que gays e lésbicas beneficiem-se do casamento. E, cada uma das vezes, depois de citarem à Bíblia à saciedade, eles saem e usam essa desculpa para o seu ódio a fim de fazerem coisas terríveis.

O que faz um leviticense é a sua capacidade de transmutar as suas crenças em ódio e intolerância.

Na minha opinião a melhor coisa que os cristãos podem fazer é reconhecer esse grupo no seu meio – gente que lê o mesmo livro, alega seguir os mesmos ensinos e afirma adorar o mesmo Cristo, mas que através de seus atos demonstra ser, vez após outra, algo que não um cristão. Creio que os cristãos deveriam perguntar a essas pessoas: “Quem são vocês? Vocês seguem o exemplo amoroso de Cristo ou seguem as regras de Levítico? Vocês usam a Bíblia para iluminar o seu amor ou para justificar o seu ódio? Quando Cristo voltar, de que modo vê irá mostrar que trilhou o seu caminho? Pelo número de pessoas que amou, ou pelo número de pessoas a quem ‘justificadamente’ se opôs? Você ama a Cristo ou ama regras? Você é cristão ou leviticense?”

Quanto ao restante de nós, proponho que nos esforcemos para separar os cristãos dos leviticenses em nossas mentes. Não vejo motivo para culpar aqueles que genuinamente seguem a Cristo pelas ações dos que meramente usam Cristo como escudo para seus próprios ódios e temores. E, quando um leviticense atravessar o seu caminho, educadamente aponte para ele o que ele realmente é: não um cristão, mas mero leviticense.

Creio que os cristãos deveriam perguntar a essas pessoas: “Quem são vocês? ”

Com toda a probabilidade, o leviticense irá odiá-lo por isso. Mas isso apenas comprova a coisa toda.

John Scalzi, fevereiro de 2004

Leia também:
A Solução Final de Lutero

FALTAM 6 DIAS PARA A EXPEDIÇÃO CORDEL

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17/9/2005

Rousseau e outros ladrões das minhas idéias

Estocado às 08:33 em
por Paulo [brabo!]

A inveja literária, a vontade de ter escrito o que outro escreveu, é sensação conhecida dos andarilhos impenitentes que percorrem tantas páginas que passam a acreditar em algum mérito inerente na experiência literária. Levada ao passo seguinte, a tendência faz-nos crer que a experiência de leitor não basta. Em algum momento passamos a ver a literatura como um país que pode ser não apenas apreciado de longe, mas talvez invadido. O direiro de ir e vir deve estender-se às letras, cremos, e a literatura pode ser também nosso território: queremos estabelecer as suas fronteiras, definir os melhores destinos e dar nome aos seus cumes. Apenas não estamos preparados para, depois do esforço, encontrarmos já no topo uma bandeira.

É ultrajante. Não apenas Borges, mas também Tolkien e uma infinidade de asseclas maiores e menores roubaram descaradamente idéias que deveriam ser minhas.

Há meses que planejo escrever para a Bacia um artigo chamado “O Último Pudor”. Roubei eu mesmo a idéia, como acontece com freqüência, de uma ou duas frases indignadas do Ivan. O conceito me parece na verdade tão fundamental que venho adiando a composição desse artigo para quando tiver mais tempo, certamente para depois da Expedição Cordel.

Pois, lendo esses dias o Discurso de Rousseau, que emprestei da Alice e do qual já roubei uma boa goiaba, fiquei surpreso (e inteiramente indignado) ao encontrar um parágrafo que poderia ter sido extraído diretamente do artigo que ainda quero escrever!

O trecho que Rousseau roubou de mim em 1750 é o seguinte:

Hoje, quando pesquisas mais sutis e um gosto mais refinado reduziram a princípios a arte de agradar, reina em nossos costumes uma vil e enganosa uniformidade, e todos os espíritos parecem ter sido lançados numa mesma fôrma: incessantemente seguem-se os hábitos tradicionais, jamais a própria índole. Já não se ousa parecer o que se é; e, nessa coerção perpétua, os homens, que formam esse rebanho a que se chama sociedade, postos nas mesmas circunstâncias, farão todos as mesmas coisas, se motivos mais fortes não os desviarem. Portanto, nunca se saberá com quem se está lidando: será preciso, pois, para conhecer o amigo, esperar as grandes ocasiões, ou seja, esperar que já não haja tempo para tanto, uma vez que é para essas mesmas ocasiões que seria essencial conhecê-lo.

Como se vê, Rousseau não apenas apropria-se dos temas e argumentos que me são mais caros, mas também do meu estilo. A baixeza!

O leitor mais distraído da Bacia poderá reconhecer imediatamente no trecho citado o meu próprio estilo, as minhas ênfases, o meu pontuado e semipedante sarcasmo. Perceba como ele rouba o advérbio “incessantemente”, que uso eu mesmo incessantemente, e que, pensando bem, posso talvez ter roubado como tantas coisas de Borges.

Agora não sei mais. Sou uma farsa e não tenho mais como dizer que goiaba não roubei.

FALTAM 7 DIAS PARA A EXPEDIÇÃO CORDEL

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15/9/2005

Voltando a Borges

Estocado às 06:22 em
por Paulo [brabo!]

Jorge Luis Borges tinha, admitidamente, suas obsessões – temas aos quais sempre voltava: tigres, labirintos, espadas, deuses nórdicos, a doutrina do Eterno Retorno. Eu também tenho as minhas, e a menor delas não é o próprio Borges, a quem não tenho outra escolha mas voltar incessantemente.

Já foi observado (inclusive, com mais enfado que modéstia, pelo próprio) que a obra do ficcionista Borges pressupunha uma concisão sem precedentes: seus contos expressam em dez páginas o que requereria, de outro, quinhentas.

“Livros sagrados, ou seja, livros que ensinam o que ensina o universo inteiro ou a consciência de cada homem”.

Porém o Borges dos ensaios é, estilisticamente, indistingüível do autor dos contos. Invejo (e quem me conhece sabe o quão desastradamente tento imitar) sua capacidade de encapsular filosofias inteiras em duas ou três fases alucinantes. Suas idéias, mais do que qualquer outro que conheço, verdadeiramente não descansavam. Seus textos são únicos no que têm de exigentes e compensadores. A quantidade de idéias por centímetro quadrado é assombrosa. Minha tentação é citar o velho Borges parágrafo por parágrafo e frase por frase, para sempre e até a exaustão, para ver se aprendo ou ensino alguma coisa com ele.

Felicidades como “livros sagrados, ou seja, livros que ensinam o que ensina o universo inteiro ou a consciência de cada homem” – fecundíssima jóia que aparece entre outras, quase casualmente, no colar que é A Muralha e os Livros.

Ah, quem me dera ter escrito isso. Tudo.

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14/9/2005

Povos policiados

Estocado às 09:50 em
por Paulo [brabo!]

Enquanto o governo e as leis suprem à segurança e ao bem-estar dos homens reunidos, a ciência, as letras e as artes, menos despóticas e talvez mais poderosas, estendem guirlandas de flores nas correntes de ferro que eles carregam, sufocam-lhes o sentimento dessa liberdade original para a qual pareciam ter nascido, fazem-nos amar a sua escravidão e formam o que chamamos de povos policiados.

A necessidade ergueu os tronos, as ciências e as artes os consolidaram. Poderosos da terra, amai os talentos, e protegei aqueles que os cultivam. Povos policiados, cultivai-os; felizes escravos, vós lhes deveis este gosto delicado e fino de que vos vangloriais, essa mansidão de caráter e essa urbanidade de costumes que tornam tão ameno e fácil o trato entre vós; em suma, a aparência de todas as virtudes, sem possuir nenhuma delas.

J. J. Rousseau, em seu Discurso premiado de 1750

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