31/12/2004

Últimas palavras

Estocado às 06:12 em
por Paulo [brabo!]

No leito de morte, o velhinho chama o filho para junto de si.

– Está vendo esse relógio, meu filho? Foi do meu tataravô, que deu para o meu trisavô, que deu para o meu bisavô, que deu para o meu avô, que deu para o meu pai, que deu-o pra mim. Quer comprar?

Contou-me esta, para me atormentar e no último minuto da ceia de Natal deste ano, meu querido tio Edson. Deixo-a, para livrar-me dela e presentear o impenitente freqüentador da Bacia.

Dias melhores verão, como dizia Marco Antonio Lehr.

Este é o velho sáite da Bacia das Almas, que não será mais atualizado. Para ler os novos artigos e acessar os comentários visite o novo endereço: www.baciadasalmas.com


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30/12/2004

A alma-gêmea e a fidelidade

Estocado às 06:29 em
por Paulo [brabo!]

J. R. R. Tolkien, autor da trilogia O Senhor dos Anéis

Praticamente todos os casamentos, até mesmo os felizes, são erros – no sentido de que com quase toda a certeza (num mundo mais perfeito, ou até mesmo com mais cuidado neste nosso mundo bastante imperfeito) ambos os cônjuges poderiam ter encontrado parceiros mais adequados. Porém a verdadeira “alma-gêmea” é a pessoa com quem se está casado.

Você na verdade escolhe muito pouco: a vida e as circunstâncias fazem a maior parte (embora, se existe Deus, esses devem ser seus instrumentos, ou aparições dele). É notório que na verdade os casamentos felizes são mais comuns quando a “escolha” dos jovens é ainda mais limitada, pela autoridade parental ou familiar, desde que exista uma ética social de responsabilidade não-romântica e de fidelidade conjugal.

Porém até mesmo nos países onde a tradição romântica afetou de tal maneira os arranjos sociais de modo a fazer as pessoas acreditarem que a escolha do parceiro é questão que diz respeito apenas aos jovens, apenas a fortuna mais infreqüente junta um homem e uma mulher que são realmente “destinados” um ao outro, e capazes de um amor muito grande e esplêndido.

A idéia ainda nos fascina, agarra-nos pela garganta: poemas e histórias em multidão foram escritos sobre o assunto, mais numerosos, provavelmente, do que o total de amores dessa natureza na vida real (e ainda assim a maior dessas histórias não fala de um casamento feliz de tão admiráveis amantes, mas da sua trágica separação; como se até mesmo nessa esfera o verdadeiramente grande e esplêndido neste mundo decaído sejam mais aproximadamente obtidos pelo “fracasso” e pelo sofrimento).

Em tal grandioso e inevitável amor, freqüentemente amor à primeira vista, capturamos um relance, suponho, do casamento como deveria ser num mundo não decaído. Neste mundo decaído temos como guia apenas a prudência, a sabedoria (rara na juventude, e que vem tarde demais na velhice), um coração puro e a fidelidade da vontade.

Março de 1941, numa carta a seu filho Michael

Leia também:
O sonho de Jair – versão expandida
Sem garantias

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29/12/2004

Paulo Brabo…

Estocado às 06:32 em
por Paulo [brabo!]

...em roupas de trabalho.

Abandonei o Painter por 10 minutos cravados e fiz essa usando uma [apropriadamente] babenta caneta BIC num sulfite A4.

Em homenagem aos velhos tempos.

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28/12/2004

Gringoes

Estocado às 05:58 em
por Paulo [brabo!]

As estatísticas no meu provedor apontam que nos meses de novembro e dezembro deste ano a Bacia e o meu portfólio no saíte www.brabo.ppg.br receberam mais visitas de norte-americanos (46,16%) do que de brasileiros (44,13%).

Em seguida, mas muito longe, vieram Portugal, com 1,45% (aí está você, Manuel) e o Reino Unido, com 1,07% (my faithful brother Julian). Em vigésimo e último lugar ficou a Polônia, com 0,12% das visitas.

Well, what can I say?

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27/12/2004

Tissot

Estocado às 06:15 em
por Paulo [brabo!]

O relógio Tissot que meu pai usava quando eu era criança, e que epitomizava para mim a mais destilada essência da masculinidade. Quando eu fosse um homem adulto, eu sabia, iria usar um relógio como esse.

Anos depois minha irmã Alice deu-me de presente um relógio parecido, mas o charme clássico deste modelo Militar Automatic é, como quase tudo, irrecuperável.

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26/12/2004

A raça superior

Estocado às 06:52 em
por Paulo [brabo!]

Surpreende-me não que os nazistas supusessem (com base em falsa ciência, como ficou provado) que os arianos fossem uma raça de algum modo “superior”, mas que eles acreditassem sinceramente que, como raça superior, tinham o direito de relegar a um segundo plano e de eliminar segundo a sua conveniência os membros das raças que eles sabiam “inferiores”.

A grandeza, segundo essa visão, é caracterizada pela liberdade com que o superior pode dispor do inferior – pelo quanto é livre para escanteá-lo, ignorá-lo, dominá-lo, usá-lo como capacho e como bucha de canhão e por fim, sendo necessário, livrar-se dele da forma menos inconveniente possível. A raça superior, supõe esse raciocínio, não teria nenhuma outra para prestar contas: ninguém para respeitar, ninguém diante de quem se curvar, ninguém para impedi-la de alcançar os seus objetivos “superiores”.

Surpreende-me que os nazistas acreditassem que, como raça superior, tinham o direito de eliminar segundo a sua conveniência os membros das raças “inferiores”.

Os nazistas perderam a guerra mas triunfaram da forma mais abrangente em deixar o mundo pós-Guerra (o nosso mundo) impregnado desse sentimento e dessa pregação. Hoje em dia virtualmente todos no mundo ocidental acreditam e vivem pelo conceito aparentemente tão auto-explicativo de que quem é “superior” tem direitos inerentes sobre quem é “inferior”. O capitalismo, que os nazistas tanto desprezavam, está baseado no mesmo conceito que os norteava: o superior pode e deve ganhar com o serviço do inferior.

Vale lembrar que o cristianismo está fundamentado em premissas diametralmente opostas, pelo menos tão imediatamente incompatíveis com o capitalismo quanto com o nazismo. Segundo a visão tão ultrapassada de Jesus, grande é quem ousa curvar-se diante do inferior e servi-lo. A grandeza é caracterizada pela renúncia voluntária; como enfatizou Henry Nouwen, quem quer ser realmente grande precisa aprender a descer até a grandeza.

Esquecemos, todos nós, cristãos ou não, e da forma mais conveniente, tanto do holocausto quanto das exigências insanas de Jesus: somos todos nazistas agora, todos egoístas esclarecidos, todos absolutamente convictos de que somos dignos de nossos privilégios, pelo menos naquilo que nos sabemos superiores a – pelo menos – tantos.

Apenas a raça superior sobreviveu à guerra.

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25/12/2004

1943, Gueto de Varsóvia

Estocado às 06:44 em
por Paulo [brabo!]

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