30/3/2005

O propósito secreto

Estocado às 06:11 em
por Paulo [brabo!]

Nem só de auto-expressão vive o homem.

Apenas uma ou duas pessoas sabem, mas a Bacia das Almas tinha desde o início um propósito secreto, muito definido e muito bem guardado. Hoje, que o sáite faz oficialmente um ano, será oportuno abrir o jogo e enunciar claramente o que tem sido mantido em segredo até agora.

A Bacia não nasceu para ter vida própria. Nasceu como um portfólio: sua única razão de ser era dar a outras pessoas uma idéia do que sou capaz de fazer. Provar que tenho cacife para a coisa. É isso, senhoras e senhores. Minha intenção era, desde o início, vender meus serviços de blogueiro jornalista produtor de conteúdo para determinada instituição. Tudo que fiz tinha em vista, de certa forma, esse objetivo. Um esforço muito concentrado, cirúrgico. Afinal de contas, eu sabia que estava sendo observado por quem eu queria atingir.

Não funcionou.

Hoje, 358 artigos e 775 comentários depois, sou obrigado a reconhecer diante de todos e de mim mesmo que não consegui. Angariei muitos amigos e trilhei o primeiro passo no caminho do autoconhecimento, o que não é pouco, mas o propósito da coisa (que apenas não é mais secreto), permanece ali, inalcançado e estéril. Tenho de encarar isso.

A Bacia é, no seu sentido mais original e secreto – no meu sentido – um ambicioso e retumbante fracasso.

Este é o velho sáite da Bacia das Almas, que não será mais atualizado. Para ler os novos artigos e acessar os comentários visite o novo endereço: www.baciadasalmas.com


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29/3/2005

EXPEDIÇÃO CORDEL: Polichinelo encontra Lampião

Estocado às 12:00 em
por Paulo [brabo!]

Está confirmado: meu chapa britânico Julian Crouch já comprou a passagem e vai passar três semanas no Brasil, de 25 de setembro a 14 de outubro deste ano. Precisamos de hospedagem (grátis) para dois Estaremos no Rio de Janeiro na primeira semana e em Recife em Fortaleza nos dez dias restantes.

Julian (que como eu vivo dizendo, é no fundo um cara simples) está especialmente interessado no conceito e no visual particular da litetura literatura de cordel, por isso nossa Expedição planeja desenterrar exposições, entrevistar autores, participar de um workshop ou outro, visitar gravuristas e penetrar território original de cordel em pleno sertão nordestino.

Admiro demais o ser humano
que é gerado num ventre feminino
envolvido nas dobras do destino
e calibrado nas leis do Soberano
quando faltam três meses para um ano
a mãe pega a sentir uma moleza
entre gritos lamúrias e esperteza
nasce o homem e aos poucos vai crescendo
e quando aprende a falar já é dizendo:
quanto é grande o poder da Natureza.
(Pedro Bandeira)

A imagem que ilustra esta nota foi feita no Painter pelo próprio Julian.

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Cosmos e Jurassic Park

Estocado às 08:47 em
por Paulo [brabo!]

Muita gente da minha geração foi criada sob o signo do Credo Cético da Ciência: “Somente o Cosmos é Deus, e Carl Sagan é o seu Profeta.” Fico pensando o que o Profeta teria pensado da recente descoberta de tecido, vasos e células sangüíneas – carne de dinossauro – preservados dentro de um fêmur de Tiranossauro Rex de mais de 65 milhões de anos de idade.

Sagan, que duvidava de Deus mas se deleitava nas suas Estranhezas, teria adorado a idéia e suas possibilidades.

Parque dos Dinossauros, alguém?

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Auto-retrato

Estocado às 06:37 em
por Paulo [brabo!]

Uma versão maior aqui.

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28/3/2005

Todos os homens

Estocado às 06:44 em
por Paulo [brabo!]

A ciência confirma o que as mulheres já sabiam há anos.

Não apenas homens e mulheres são geneticamente distintos – ao ponto de ser quase correto afirmar que somos animais de espécies diferentes que acontecem de produzir prole fértil.

O cromossomo Y, que define a masculinidade, tem outras surpresas. Como esclarece Delia K. Cabe em The Book Of Y:

As mulheres trazem 23 pares de cromossomos, cada conjunto uma unidade completa – como um par de meias novo em folha. Nas mulheres o 23º par é um XX. Os homens também têm 23 pares, mas o 23º par é a dupla XY – uma meia completa e seu parceiro em frangalhos, o cromossomo Y, que é na verdade um X com uma das pernas cortada. O aleijado cromossomo Y tem apenas 20 ou 30 genes, comparado aos cerca de 2000 ou 3000 genes do poderoso cromossomo X.

Os genes que o cromossomo Y perdeu ao longo do tempo tornaram-no incapaz de recombinar-se – isto é, de trocar genes com o X, como fazem os outros pares de cromossomos de modo a peneirar mutações danosas e preservar a sua integridade1.

O cromossomo Y é o estranho no ninho e não tem um parceiro de troca. Ao contrário dos extrovertidos X, o cromossomo Y é fechadão e não conversa nem troca informações com nenhum outro: para não se degenerar completamente ele aprendeu a trocar genes internamente. Talvez seja por isso, penso eu, que os homens são tão emsimesmados e relutantes em efetuar a partilha. Muito literalmente, a partilha não é natural em nós.

Mas não é só isso. Por causa dessa sua limitação inerente, o cromossomo que define o sexo masculino (ao contrário de todos os outros) é passado de pai para filho através de clonagem, não sexualmente. O homem recebeu o cromossomo Y inalterado do seu pai, que recebeu o mesmo cromossomo Y do seu avô, que recebeu-o do seu bisavô e assim por diante, até Adão. Ao contrário das mulheres, que são fruto de saudáveis recombinações, os homens são frutos de precária clonagem.

Todas as mulheres são diferentes entre si, mas todos os cromossomos Y são de certa forma o mesmo. Num certo sentido muito profundo é correto dizer que todos os homens são iguais.

1 No restante do genoma humano, os 22 pares de autossomos (cromossomos não sexuais) alinham-se quando as células estão preparando-se para se dividir de modo a criar esperma e óvulos para a geração seguinte. Nessa ocasião os pares de cromossomos freqüentemente passam por cima uns dos outros e trocam entre si porções de genes. Nessa troca genética seqüências que contem "erros tipográficos" (envolvendo apenas uma ou duas das letras genéticas) ou grandes regiões com DNA faltante ou rearranjado (que ocasionam mudanças funcionais – mutações) podem ser retificadas pela substituição das seqüências danificadas por seqüências normais.

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27/3/2005

O momento

Estocado às 10:26 em
por Paulo [brabo!]

A Páscoa é, evidentemente, idéia mais momentosa e alucinante do que o Natal. Ninguém pode nos ensinar a nascer, mas Jesus pode me ensinar a morrer, o que, neste mundo que prefere ignorar até mesmo a sua incapacidade de lidar com a última certeza, talvez seja o ensino mais útil de todos.

Bastaria na verdade saber como morrer para viver em “novidade de vida”, mas a Páscoa me toma pela mão e me faz percorrer terreno ainda mais improvável e sublime: obriga-me a contemplar a possibilidade mais improvável e a reviravolta mais desejada de todas: a ressurreição. Nenhum final é suficientemente trágico enquanto estamos vivos, porque se vemos e choramos diante de Romeu e Julieta mortos no palco, sabemos que nós mesmos estamos ainda vivos. Mas quando os atores levantam-se para receber os aplausos, algo estranho e sublime acontece. Talvez, passa pela nossa cabeça, alguém seja capaz de segurar a espada da morte e voltar depois que as cortinas caem para receber os aplausos. A bondade de Shakespeare mantém Romeu e Julieta vivos e de certa forma eternos – e, por vias sempre misteriosas, a encenação repetida da mesma tragédia transforma-os num estranho emblema de esperança. Talvez nenhum veneno seja plenamente eficaz; talvez uma bondade extrema faça a adaga perder para sempre o seu fio.

É a respeito desse improvável momento que Tolkien diz:

Pois essa história em particular é suprema – e é verdadeira. A Arte foi comprovada. Deus é Senhor de anjos, homens e elfos. Lenda e História encontraram-se e fundiram-se.

A morte pode não ser a última a sorrir.

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A coisa mais rara de todas

Estocado às 06:09 em
por Paulo [brabo!]

Quando postei esta imagem (veja um detalhe aqui) no Painter Forum de www.indeptharts.org Jeff Wong perguntou se eu achava que Michael Jackson era completamente inocente, e se eu via o julgamento como uma armação dos acusadores para conseguir o dinheiro dele.

Minha resposta: completamente inocente ninguém é. A inocência é coisa ainda mais rara que a justiça.

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